Tristes Dúvidas

1.

Há dois anos Patrícia falava sobre as mesmas decepções com o psicólogo. Sobre as dores que não curavam, mas que, também, não doíam. Até que um lampejo de lucidez a pegou de surpresa na saída da terapia numa segunda-feira cinza e morna e ela indagou-se:

Será que a dor se fez parte de mim a ponto de ser doloroso livrar-se dela?

***

2.

Clara e Lola, amigas inseparáveis desde a escola, conversavam sobre o almoço do dia, quando Clara interrompeu o assunto com um desabafo:

– Sinto-me triste! Já chorei tanto hoje, mesmo sem querer, o que faço para superar, Lola?

– Não sei, queria chorar como você, sentir alguma coisa, mas continuo a sentir nada sobre a vida. – respondeu. Vamos almoçar no chinês? Lá a gente conversa melhor. – devolveu para Clara, que nem percebeu e perguntou de novo:

– O mais triste é aquele que sente tristeza ou quem não a sente, Lola?

Com olhos estáticos, Lola engoliu a seco a verdade e perdeu a fome.

***

3.

Esperou ele fechar a porta e ficou ali olhando a TV desligada, enquanto aceitava o fim de mais um relacionamento. Tinha se conformado em viver histórias que não davam certo, mas, apesar da falta de protestos, sempre ficava com uma dúvida que lhe imprimia a certeza de que a situação ia se repetir:

Quando meu coração sarar, vou ter mais coração ou cicatriz?

Too busy to myself…

Amanhã eu tenho tanta coisa pra fazer.

Sabe, nada tão saudável. Não vou acordar cedinho, nem me alongar, correr ou nadar. Meu café da manhã será fora de hora e não terá frutas, nem suco. Me entupirei de cafeína para curar a ressaca de uma noite não dormida.

Nada farei de tão musical também. Não vou aprender a tocar gaita de novo, nem cantar no chuveiro… Não vou enviar uma música para um amigo, nem baixar novos discos. Muito menos dançar. Só vou ouvir Beatles, porque sem eles meus dias não seriam meus e porque, para mim, é uma lei ouví-los.

Também não vou fazer algo tão divertido, como jogar videogame com o irmão, escrever cartas para os amigos, ler um livro do Saramago ou a biografia dos Beatles, mandar mensagem de texto para um cara especial, ir ao cinema ou fotografar, testando sempre a opção macro.

Ainda vai faltar-me coisas saborosas, como comer sauduíche de peito de peru e presunto do Subway, tomar açaí e gastar uma grana com trufas de torta alemã para a família. Provavelmente não vou comer lasanha também, nem tomar capuccino. Nem estará no cardápio a salada que minha tia faz, nem o milk-shake da minha mãe, nem o cuscuz da minha vó.

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Três gelos e um segundo

Olhou fixamente num ponto e desatou a falar. Queria resolver tudo de uma vez, não aguentava mais toda a angústia de reprimir seus sentimentos e opiniões e desgostos e mais todas aquelas coisas que ele não sabia explicar, mas sentia intensamente por ela.

– Eu sei que disse que não me envolveria… Tentei, mas tô cansado de fugir de mim mesmo. Sei lá… mas eu diria assim, que apesar de tudo, esse meu carinho, estranho e pouco nítido, na verdade, sabe, é todo pra você.

Silêncio.

– Olha, eu devia ter falado antes. Não pense que quero confundi-la ou enganá-la. Eu… eu… não parece, mas…

Silêncio.

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Sobre tudo, a janela

Gostava de sentar perto da janela no ônibus. O vento, a paisagem, o som… precisava estar em contato com a vida o tempo todo e, para ela, a vida podia ser alcançada ali, através do espaço que a breve abertura de janela lhe cedia. Só não sabia como, então repetia esse gesto como um ritual, porque acreditava que uma hora a resposta viria.

Como em todos os dias, sempre na ida e volta para casa, adotou a janela de sua preferência e ali ficaria até seu destino se ele, humildemente, não tivesse sentado ao lado.

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Moments Forever: celebração da vida

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Nossa vida é construída de momentos, simples e rápidos, muitas vezes imperceptíveis na nossa rotina cada vez mais corrida. Isso que falei pode ser o maior dos clichês, mas admita, clichês são verdades inegáveis para todos nós, seres mortais.

Unindo alguns dos instantes mais frequentes da vida, com muita sensibilidade, William Hoffman produziu o curta 16: Moments. São registros inspirados em Sum, livro de David Eagleman.

Esse curta representa bem uma convicção que eu tenho. Sou do tipo que acredita num gosto único para cada situação, mesmo que a gente repita um gesto várias vezes. Beijar alguém, caminhar na praia, chorar, sorrir, experimentar um sorvete (mesmo que seja sempre o de flocos), terão sentidos diferentes a cada vez que o fizermos. Vendo o curta senti isso, as minhas emoções primeiras… me fez lembrar o chá de erva cidreira que tomava quando criança na casa do meu Vovô Pedro, dos biscoitos de bichinho da Weston que acompanhavam, de quando eu sabia todas as cantigas para “pular elástico” na calçada de casa… coisas do passado que não faço mais e momentos rotineiros, como observar o rio no trajeto para casa. Dia e noite repito o mesmo gesto, da janela do ônibus registro a paisagem, sempre com um amor diferente, maior…

De qualquer forma, 16: Moments emociona, porque faz você relembrar o que te faz feliz e rir do que te deixa chateado, como perder o ônibus ou pisar no “prêmio” que seu cachorro deixou pelo caminho… Te fazendo ou não pensar sobre o valor da sua vida, vale a pena esperar o vídeo carregar e assistir.