catatonia

Vejo os pingos da chuva e lembro do teu choro mais honesto. Você ali indefeso, falando da tua maior saudade, com um nó na garganta, tanta solidão.

Meu peito ficou numa angústia, eu querendo te ver feliz, enxugando teu pranto, oferecendo-te um ombro e um café. E no resumo disso tudo, eu te oferecia muito mais do que devia, te dava amor a cada movimento que minhas mãos faziam em teu cabelo. E na raiz, eu sabia que tu se entregava. Ilusão.

Sempre manti o raciocínio louco de que o amor nascia nesse aninhado que é um cafuné. Eu queria acreditar que tu me deixavas tocar teus cabelos porque entendias isso. Meus pensamentos nunca foram lógicos, óbvio.

Mas, num rompante, bebeste o café em um só gole e mudaste de assunto emendando palavras que eu não podia acompanhar. Largaste-me ali, aproveitando que eu não sabia reagir. Fiquei muda, mesmo tagarelando nas entrelinhas.

Então olhei para a vidraça, a garoa havia cessado e, enquanto eu ouvia os teus passos subirem a escada, silenciosamente me inundava. E me senti ridícula.

Ainda me sinto.

Tristes Dúvidas

1.

Há dois anos Patrícia falava sobre as mesmas decepções com o psicólogo. Sobre as dores que não curavam, mas que, também, não doíam. Até que um lampejo de lucidez a pegou de surpresa na saída da terapia numa segunda-feira cinza e morna e ela indagou-se:

Será que a dor se fez parte de mim a ponto de ser doloroso livrar-se dela?

***

2.

Clara e Lola, amigas inseparáveis desde a escola, conversavam sobre o almoço do dia, quando Clara interrompeu o assunto com um desabafo:

– Sinto-me triste! Já chorei tanto hoje, mesmo sem querer, o que faço para superar, Lola?

– Não sei, queria chorar como você, sentir alguma coisa, mas continuo a sentir nada sobre a vida. – respondeu. Vamos almoçar no chinês? Lá a gente conversa melhor. – devolveu para Clara, que nem percebeu e perguntou de novo:

– O mais triste é aquele que sente tristeza ou quem não a sente, Lola?

Com olhos estáticos, Lola engoliu a seco a verdade e perdeu a fome.

***

3.

Esperou ele fechar a porta e ficou ali olhando a TV desligada, enquanto aceitava o fim de mais um relacionamento. Tinha se conformado em viver histórias que não davam certo, mas, apesar da falta de protestos, sempre ficava com uma dúvida que lhe imprimia a certeza de que a situação ia se repetir:

Quando meu coração sarar, vou ter mais coração ou cicatriz?

incógnita

Toca Phoenix no player. Love For Granted. Nessas horas, eu deveria ouvir algo como Franz Ferdinand e seu rock dançante ou Metallica com suas batidas agressivas. Mas eu escolho o que vai me fazer chorar, talvez porque eu posso usar como justificativa para o caso de alguém perceber as lágrimas. “A música é triste!”, responderei.

Mas não é a música. São sentimentos que me provocam, que insistem em me fazer optar por escolhas que eu não quero. Escolhas que vão me machucar. Escolhas que, talvez, machuquem alguém.

São dúvidas, medos, angústias… Coisas que eu evito falar, para que elas não se concretizem.

E eu tento ouvir algo alegre, mas escolho The Smiths. Please, Please, Please Let Me Get What I Want.
Eu tenho a infantil mania de complicar tudo, de achar que a vida sempre me distrai para que eu não perceba que ela quer aprontar comigo. Autossabotagem é a palavra. Eu sempre espero o dia em que vou me decepcionar.

Se eu dou espaço para o que se passa na minha cabeça, talvez eu me arrependa para o resto da vida. E com a ilusão de que fiz o melhor, mesmo com o arrependimento me atormentando dia e noite. Se eu não ceder… vou ter que esperar dia após dia para saber o que vai acontecer. E é disso que eu tenho mais medo na vida.

E eu tento seguir (e me segurar) ao som de For No One, dos Beatles. Mas como conseguir isso ouvindo uma das músicas mais tristes dos garotos de Liverpool?