E aí, tudo bem?

Era 20 de novembro. O telefone tocou e, então, ela passou pela porta giratória, viu o carro ali parado, ele a esperando e, meio que sem saber como se apresentar, deu-lhe um abraço enquanto perguntava: “e aí, tudo bem?”.

Ele abriu o maior sorriso do mundo. Sim, estava.

***

O telefone tocou quando ela já havia deitado na cama e puxado o cobertor até cobrir a cabeça, como se estivesse em um casulo. Em agosto tem sempre aquele frio exagerado, por causa dos ventos fortes e das chuvas intermitentes.

Pensou duas vezes, mas pegou o telefone, porque era ansiosa e não conseguia ficar sem saber quem a telefonava naquele momento. Levantou rápido e, quando olhou para a tela do iPhone, sentiu sua vida voltando dois anos e um silêncio desesperador tomar conta de seu quarto.

Atendeu. Do outro lado da linha, a voz que ela não queria mais ouvir perguntava: “e aí, tudo bem?”. Não mais.

***

Colocou The Turtles no repeat. Happy Together tocava até enjoar, atravessando a janela do apartamento, espalhando amargura e ironia pela cidade. A campanhia tocou e o vizinho que mal a conhecia… “e aí, tudo bem?”.

Era 20 de novembro.

Too busy to myself…

Amanhã eu tenho tanta coisa pra fazer.

Sabe, nada tão saudável. Não vou acordar cedinho, nem me alongar, correr ou nadar. Meu café da manhã será fora de hora e não terá frutas, nem suco. Me entupirei de cafeína para curar a ressaca de uma noite não dormida.

Nada farei de tão musical também. Não vou aprender a tocar gaita de novo, nem cantar no chuveiro… Não vou enviar uma música para um amigo, nem baixar novos discos. Muito menos dançar. Só vou ouvir Beatles, porque sem eles meus dias não seriam meus e porque, para mim, é uma lei ouví-los.

Também não vou fazer algo tão divertido, como jogar videogame com o irmão, escrever cartas para os amigos, ler um livro do Saramago ou a biografia dos Beatles, mandar mensagem de texto para um cara especial, ir ao cinema ou fotografar, testando sempre a opção macro.

Ainda vai faltar-me coisas saborosas, como comer sauduíche de peito de peru e presunto do Subway, tomar açaí e gastar uma grana com trufas de torta alemã para a família. Provavelmente não vou comer lasanha também, nem tomar capuccino. Nem estará no cardápio a salada que minha tia faz, nem o milk-shake da minha mãe, nem o cuscuz da minha vó.

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