domingo

Recordo a cor dos olhos dele contra a luz. Um castanho quase mel, tão bonito durante o fim de tarde ou sob a luz do bar. Eu devo ter os olhado insistentemente e ele, por certo, deve ter percebido, pois lembro de ter falado qualquer coisa sem nexo porque queria me proteger de falar o quanto eu gostei de estar ali. Ele riu. Nós rimos. E, pela janela, dava pra ver o mar numa calma que beirava a paz. Era como eu me sentia naquele domingo incomum. Pra mim, domingos sempre representavam tédio, independente do que eu fizesse. Aquele não.

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Quase cinco da manhã e um sono perdido. Nessas horas, cultivo o hábito de relembrar histórias por medo de esquecê-las. Uma mania que, por vezes, considero loucura. Ou, no mínimo, uma forma torta de apreciar a vida.

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Nisso tudo, penso: quanto levarei até amar outro domingo?

previsão do tempo

Hoje amanheceu um céu lindo, de algodão. O sol calmo, morninho, entrou pela fresta da janela e me fez lembrar das manhãs que eu acordei a seu lado. Naquele tempo era acordar, ter nosso tempo de amor, depois você saía pro banho e, quando voltava, eu já adormecera novamente. E você assistia meu sono, porque sempre que eu despertava, tinha seus olhos verdes me fitando.

Mas o tempo passou e logo eu percebo que já é noite. Com ela, cai a chuva que tanto esperei por dias e, engraçado, volto a lembrar de você. Lembro daquele dia em que nós fomos a praia caminhar. Você disse que Ponta Negra era tão bonita, que podia morar lá. Eu te abracei, te cobri de beijos e você cismou de me pedir pra subir meus pés nos seus, que você ia caminhar por nós dois. Quase caímos. Nesse dia choveu. E eu não me importei com a roupa molhada, nem se eu ia ficar resfriada.

Ainda bem que minha memória é boa e guardou tudo isso, me impedindo de esquecer.

hora de dormir

Está um silêncio danado
Vez em quando um som de vento
Um longe passar de carros
Agora cantam os galos
Mas já de novo se faz o silêncio

Gosto dessa ausência de zunido
Meu corpo se estira na cama
A calma me faz bem aos ouvidos
Minh’alma, um quê de esperança
O som do que sinto é tão bonito

Engraçado
Eu até que neste instante gostaria
Do seu riso interrompendo minha calmaria

Tenho essa coisa absurda de gostar do absurdo.