catatonia

Vejo os pingos da chuva e lembro do teu choro mais honesto. Você ali indefeso, falando da tua maior saudade, com um nó na garganta, tanta solidão.

Meu peito ficou numa angústia, eu querendo te ver feliz, enxugando teu pranto, oferecendo-te um ombro e um café. E no resumo disso tudo, eu te oferecia muito mais do que devia, te dava amor a cada movimento que minhas mãos faziam em teu cabelo. E na raiz, eu sabia que tu se entregava. Ilusão.

Sempre manti o raciocínio louco de que o amor nascia nesse aninhado que é um cafuné. Eu queria acreditar que tu me deixavas tocar teus cabelos porque entendias isso. Meus pensamentos nunca foram lógicos, óbvio.

Mas, num rompante, bebeste o café em um só gole e mudaste de assunto emendando palavras que eu não podia acompanhar. Largaste-me ali, aproveitando que eu não sabia reagir. Fiquei muda, mesmo tagarelando nas entrelinhas.

Então olhei para a vidraça, a garoa havia cessado e, enquanto eu ouvia os teus passos subirem a escada, silenciosamente me inundava. E me senti ridícula.

Ainda me sinto.

A bailarina


Ela tinha um modo tão doce de mexer o quadril enquanto circulava pelo quarto. Não importava o ritmo ou se existia música tocando, entrava numa espécie de transe e começava a brincar de bailarina enquanto andava na ponta dos pés descalços de um lado para outro. Não era um jogo de sedução, mas a única expressão de liberdade que ela conhecia.

E ele olhava admirado aquilo tudo.

O cabelo dela, preso despreocupadamente, exibia mechas soltas que enfeitavam a moldura de seu rosto com uma perfeição quase que provocada. Os lábios carregavam um tom rosado excessivo e pareciam cobrar beijos o tempo todo, numa atitude sutilmente insaciável.

E ele ansiava por interrompê-la, mas não se movia.

O silêncio dominava a realidade e ela rodopiava a ponto de flutuar de vez em quando. E mordia os lábios; e fingia tocar o vento com a ponta dos dedos; e fechava os olhos como se não estivesse sendo observada. Ou o fazia justamente por isso. Sua expressão era leve, como a de quem conquista o máximo que pode na vida e, enfim, procura o descanso. Podia sorrir ou chorar enquanto seguia sua melodia, com uma intensidade de sentimentos captada por poucos.

E ele sentiu o coração apertar.

De repente, ela pareceu despertar de seu universo e errou o passo. Riu de si mesma, olhou para ele por alguns segundos e sorriu, como quem pede desculpas pelo deslize. Em seguida, foi até a janela, afastou a cortina e deixou um pouco de luz entrar. Seu perfume atravessou o espaço e fixou no ar. Vestia uma camisola fininha, quase transparente, que, de encontro à luz do sol, mostrava os detalhes de seu corpo com nitidez.

E ele começou a chorar.

No mesmo instante, lá estava ela, novamente, movendo o quadril. Arrepios e um pouco de ousadia a fizeram soltar o cabelo e deixar que a gravidade cuidasse do resto. No minuto seguinte, revelou-se pele e lingerie, com um infinito de amor a espera dele, a quem ela resolveu devotar toda sua atenção, finalmente.

E ele, um pouco incrédulo e ansioso, aproximou-se dela e pediu, quase implorando:

– Nunca some da minha vida, tá? Eu amo você. Tanto… tanto!

E, como prometido, ela não sumiu. Mas não entendia como ele, em um amanhecer de fim de verão, resolveu deixá-la dançando sozinha e nunca mais voltou.

do medo de ser feliz

Prendeu a respiração para evitar falar o que sentia. Ele insistiu por curiosidade e porque não gostava de segredos.

Após toda a resistência do mundo, ela falou. Mas falou com um quê de tristeza mais forte que o habitual e ele achou que aquilo parecia uma despedida.

Mas não era.

– É que eu tenho tanto medo de amar você. – esquivando-se da proteção do abraço dele, não porque queria, era involuntário.
– Mas amar é algo tão bom, querida. – insistindo com um leve toque nos cachos dela.
– Eu sei. Só é difícil acreditar que, sendo realidade, eu não vá sofrer. – e fixou o olhar no horizonte, tentando segurar as lágrimas que queriam dominá-la.

E ele a olhou com tanta ternura, mas ela nem percebeu.

Não era a realidade que a fazia sofrer, mas a ilusão de realidade que ela sempre criava para si. A sua maior determinação na vida era fugir do amor e, até então, ela conseguia escapar com maestria.

Porém, azar do medo.
E sorte dela que ele não desistiu.

A ligação

Não se contentou com a última vez em que a viu. Ora, ela bateu a porta em sua cara recusando-se a ouví-lo com a desculpa que no momento tinha muito o que fazer. Resistiu por dois dias em telefoná-la, em vê-la, em ler os lamentos que ela publicava nas redes sociais. Tentou, mas já não aguentava, e decidiu que precisa dizer-lhe coisas, palavras que só ela merecia ouvir por ter sido tão rude e impaciente com ele. Então, pegou o telefone e discou apressado aquele conjunto de números que totalizavam 43.

Se odiaram na primeira vez em que se viram. Na verdade, criou-se um ressentimento estranho porque ela o olhou e não sorriu e porque ele a olhou demais. Até onde se sabe, nunca tinham trocado palavras nem olhares, aquele foi o primeiro registro de contato entre ambos e, por isso mesmo, ela não podia ficar com aquela sensação somente para si. Então, voltou-se para a melhor amiga e alertou:

– Olha lá o cara com a camisa vermelha.
– Tô vendo, o que tem? Gostou dele, né? – indagou a amiga, que tinha olhos amendoados, cheirava a doce e não sabia fazer piada.
– Claro que não, ficou louca? Ele é um metido, se você quer saber.
– Por que diz isso? Pra mim ele é gato e faz teu estilo.
– Quê? Ele… ele… ele é um metido, nada a ver comigo. – E finalizou o papo, com visível rancor do que a amiga havia dito.

Passaram-se dias quentes e estressantes até que se vissem novamente. Se encontraram em meio a prateleiras da biblioteca, mas dessa vez não se detestaram. O cheio de mofo dos livros a fez espirrar e ele, que achava obrigatório calar-se para preservar o silêncio do ambiente, se aproximou, murmurou desejos de saúde e sorriu. Paralizada e com o nariz levemente vermelho, ela só conseguia ver a covinha que se formava no lado esquerdo do rosto dele.

Continuar lendo

Pierrô e Colombina

Todo ano era a mesma coisa. Só desejava adormecer e retornar quando se restabelecesse a normalidade. Afogada em livros e filmes, mantinha distância do mundo carnavalesco e de todos aqueles que o amassem mais que a si mesmos. Preferia limonada à cerveja e um bom sono a qualquer movimento corporal que lembrasse dança. Foi capaz até de jurar que mudaria para a Argentina. Ou Londres. Ou um universo paralelo e triste em que não existisse carnaval. Mas tinha um segredo. O trio Pierrô, Colombina e Arlequim amoleciam seu coração.

Do outro lado da cidade, como em todo ano, havia o frevo das sombrinhas coloridas, a chuva de confetes e serpentinas, os beijos eufóricos e cheios de calor festivo. Atmosfera repleta de diversidade compartilhada em um trecho urbano qualquer. E ele, que prezava a intensidade e rapidez das coisas e tinha o carnaval como a festa que mais lhe fazia gosto. Em quatro dias podia ser despreocupado como em nenhuma época do ano. Além do que, todos os seus pecados, por pacto social, eram sempre esquecidos e infinitamente perdoados. Mas também tinha um segredo. Queria abandonar a folia.

E como sempre alertam os avós, o destino é um bicho bem traiçoeiro às vezes.

Continuar lendo

Sem cinema, Apenas o ‘meu’ fim

foto3

Odeio os cinemas de Natal. Por causa deles, que mantém a programação sempre contra as nossas possibilidades, perdi Apenas o Fim, do Matheus Souza.

Quinhentas mil pessoas conhecidas viram o filme e todas, todas mesmo, disseram “nossa, tua cara! Vai lá ver.”. Perturbador demais. E é certo que eu tentei vê-lo, mas numa semana adoeci para morrer e na outra, saiu de cartaz. Praga?

Definido como um retrato de toda a juventude contemporânea e da cultura pop que nos acompanha, Apenas o Fim tem cara de filme que vai me fazer chorar e rir feito uma descontrolada no cinema. Digo isso tomando por base o que dizem os críticos em seus blogs e jornais mundo afora.

foto4

O meu consolo é ver incessantemente o trailer até esperar sair nas locadoras (se bem que o emocionante é ver no telão…). Injustiça essa de deixar uma cidadã sem ver um filme, na paz tranquila e cinematográfica. Muito depressivo isso. Ainda mais com fofuras como Gregório Duvivier e Marcelo Adnet no elenco. Assim é pra querer sair quebrando tudo nesses cinemas insensíveis, que retiram um filme da programação justo no único dia em que a gente pode ver.

Protesto dado, agora verei o trailer pela “zilhonézima” vez. E prometo voltar com uma resenha assim que assistir, porque o pessoal merece.

*Acompanhe tudo sobre o filme nas redes sociais. Twitter, MySpace, Facebook, Orkut, YouTube e Blog ou Site.