temperatura

Com impiedosos raios
O sol me arde os olhos
Faz tudo ficar azulado
Me queima a pele
Derrete-me o cérebro
Cria um desgasto

Com gélida indiferença
Você me frita a mente
Distorce os fatos
Carboniza meus brios
Incendeia-me o juízo
Gera um desgosto

É por essas e outras que eu preciso de calor.

Poesia vista

“Fotografar é colocar na mesma mira a cabeça, o olho e o coração.”
Henri Cartier Bresson

O que me encanta na fotografia é o fato dela eternizar um momento, dela revelar bem mais que uma imagem, mas uma história, um sentimento, um olhar igual a nenhum outro no mundo.

Cada momento não fotografado é um momento perdido no tempo. Deixar o registro das nossas lembranças é mais que necessário para nos ajudar a ser quem somos, para nos levar até quem não conseguimos alcançar.

Enfim, como toda poesia pura e verdadeira, a fotografia é única, jamais podendo ser substituída. Ela sobressai a poesia escrita, pois atinge todos, até quem não consegue identificar o código escrito. É universal.

Fotografias, claro, me fazem chorar.

E por isso, Lost Smile e The Pen Story me encantaram. Kodak e Olympus conseguiram traduzir bem esse sentimento fotográfico. Óbvio, né? É o que oferecem!


Em Lost Smile, com trilha de Au Revoir Simone, a Kodak mostra como a fotografia é capaz de retomar quem somos. E aproveita para reforçar de maneira sutil o seu conceito It’s time to smile!.

Ao som de Sad Song, um eletro suave do trio novaiorquino, conta-se a história de uma garota que perdeu o sorriso e que, apesar de procurar em todos os lugares, não consegue recuperá-lo. Mas ela se depara com fotografias que mostram o quanto ela era feliz e então volta a sorrir. Conceito lindo, técnicas bem trabalhadas, trilha moderninha, tudo perfeito. A produção é da Paranoid US, que caprichou no uso de stop motion, live action e ilustrações.

Não tão recente quanto o vídeo da Kodak, temos The Pen Story, da Olympus, filme comemorativo do aniversário de 50 anos da PEN, a lendária câmera da marca.


Também utilizando stop motion, foram reuniadas cerca de 60 mil imagens para a produção do vídeo de 3 minutos, que mostra a tragetória de um homem desde a sua infância, tudo registrado em fotografias, claro. Trabalho belíssimo, muito sensível, sob a voz tranquila de Johannes Stankowski em Down Below.

Quase Amor

Chegou com os ventos andinos. Não sabia se lia García Marquéz, se falava ou entendia espanhol, se gostava de café para cortar o frio, se era do tipo que costumava olhar nos olhos, mais que isso, na alma.

Só de um detalhe sabia. Que ele cantava para os pássaros. E por isso, e só por isso, apaixonou-se.

E decidiu que um dia lhe cantaria música de pássaros e levaria café na cama, enquanto ele, semi-acordado e descabelado, olhasse pela fresta da janela o pequeno sol a surgir iluminado e morno e vivo… na manhã seguinte da melhor noite de suas vidas.

Também concluiu que seria, por ele, de olhar curioso e devoto, menos orgulhosa e teimosa e descuidada… desde que ele continuasse a sorrir desajeitado como fazia para o tempo.

E foi decidindo todos os seus passos ao lado dele… todos os filmes e discos e cores e sabores que eles teriam…

Mas não se movia, nunca se movia. Concentrada no que fazia, amava mais a sua ilusão do que quem a despertava. E no futuro só pensava, por ele só vivia…

E ficaria assim a vida inteira, se ele não se distraísse e perdesse os pássaros e, desse modo, sim, neste instante a visse.

Ele, que gostava de café e cigarros, não falava espanhol nem inglês, lia Charles Bukowski e achava o mundo um tédio, olhou-a como quem vê o infinito. E sentiu vontade de ir até lá, beijar seus lábios rosados, supostamente adocicados, e pôr um fim a tudo que era cinza sem gosto.

E por não ser música nem cinema, perderam-se em seus medos e inércia… Ali então permaneceram, ela a sonhar, ele a lamentar.

Podiam sim, podiam. Podiam ter movido um olhar, um sorriso… Mas não. Imaginaram, tolos, que em outro dia teriam mais coragem. Ele de mover-se, ela de encorajar-se e simplificar…

Mal sabiam, que a vida decepcionada, não deixaria mais que se encontrassem. Não do jeito que antes mereciam. E, desse modo, como pássaros jamais viveriam.

Notas voadoras

Untitled-1

Eu sempre achei pássaros bastante musicais. O poder do vôo e do canto ao mesmo tempo é algo sublime, inalcansável por seres humanos. Alguns da nossa espécie até podem ter o dom da música, mas jamais poderão voar, fato.

No meu caso, não fui contemplada com tal aptidão, mas procuro compensar isso ouvindo sempre boas músicas e procurando aprender cada vez mais sobre. Se nunca aprender a tocar algum instrumento um dia (anseio por violino e flauta num estágio mais lírico e acolhedor; ou pode ser bateria e guitarra, para esbanjar toda minha efusividade), ao menos serei mais feliz por ter escutado quem o pode fazer com maestria.

Então, navegando pela internet, descobri que o publicitário e músico paulistano Jarbas Agnelli, ao ler jornal e se deparar com uma foto de pássaros repousando sobre o fio de alta tensão do poste, decidiu que aquela imagem merecia uma música.

Para ele, a posição dos pássaros nos fios pareciam notas musicais. Assim, Agnelli constuiu uma canção que traz teclado, xilofone, clarinete, fagote e oboé. O resultado é lindo, lindo. Muito poético, doce e delicado. Por vezes, me lembra uma canção de ninar, a leveza de uma bailarina ou, mais precisamente, o som que o vento deve produzir ao tocar a asa de um pássaro. Não sei, enfim, sei que é encantador. Bela interpretação da foto de Paulo Pinto, fotógrafo da Agência Estado.

Me fez lembrar de Songbird do Oasis, que, apesar da antipatia intríseca dos Gallagher, era uma banda que me fazia muito gosto. Sinto um estranhamento ao pensar sobre essa dissolução, mas acho que o saudosismo de suas músicas transmitido a partir de agora, me fará gostar deles ainda mais.

Enfim, entre pássaros e canções, o que vale mesmo é o amor que isso nos dá.

♪♫ Gonna write a song so she can see
Give her all the love she gives to me
Talk of better days that have yet to come
Never felt this love from anyone ♪♫