um dois cinco

Ela ama, sonha e caminha na Paulista
Um amor solitário, traduzido em sonho ingênuo
Feito a passos largos
E que fugiu, no fim, que fim?

‘Let me sing you a Waltz’
Cantou Celine em Before Sunset
Mas não há pôr do sol, nem valsa
O Jesse tinha razão
É assim que ao fim (que fim?) todos pensam
‘Hey, I’m glad you’re gone’

E confusa e sem opção
Caminha, mas já não sonha, lamenta
E a avenida, com infinitos sinais fechados
Faz seu único destino a Consolação

incógnita

Toca Phoenix no player. Love For Granted. Nessas horas, eu deveria ouvir algo como Franz Ferdinand e seu rock dançante ou Metallica com suas batidas agressivas. Mas eu escolho o que vai me fazer chorar, talvez porque eu posso usar como justificativa para o caso de alguém perceber as lágrimas. “A música é triste!”, responderei.

Mas não é a música. São sentimentos que me provocam, que insistem em me fazer optar por escolhas que eu não quero. Escolhas que vão me machucar. Escolhas que, talvez, machuquem alguém.

São dúvidas, medos, angústias… Coisas que eu evito falar, para que elas não se concretizem.

E eu tento ouvir algo alegre, mas escolho The Smiths. Please, Please, Please Let Me Get What I Want.
Eu tenho a infantil mania de complicar tudo, de achar que a vida sempre me distrai para que eu não perceba que ela quer aprontar comigo. Autossabotagem é a palavra. Eu sempre espero o dia em que vou me decepcionar.

Se eu dou espaço para o que se passa na minha cabeça, talvez eu me arrependa para o resto da vida. E com a ilusão de que fiz o melhor, mesmo com o arrependimento me atormentando dia e noite. Se eu não ceder… vou ter que esperar dia após dia para saber o que vai acontecer. E é disso que eu tenho mais medo na vida.

E eu tento seguir (e me segurar) ao som de For No One, dos Beatles. Mas como conseguir isso ouvindo uma das músicas mais tristes dos garotos de Liverpool?

do medo de ser feliz

Prendeu a respiração para evitar falar o que sentia. Ele insistiu por curiosidade e porque não gostava de segredos.

Após toda a resistência do mundo, ela falou. Mas falou com um quê de tristeza mais forte que o habitual e ele achou que aquilo parecia uma despedida.

Mas não era.

– É que eu tenho tanto medo de amar você. – esquivando-se da proteção do abraço dele, não porque queria, era involuntário.
– Mas amar é algo tão bom, querida. – insistindo com um leve toque nos cachos dela.
– Eu sei. Só é difícil acreditar que, sendo realidade, eu não vá sofrer. – e fixou o olhar no horizonte, tentando segurar as lágrimas que queriam dominá-la.

E ele a olhou com tanta ternura, mas ela nem percebeu.

Não era a realidade que a fazia sofrer, mas a ilusão de realidade que ela sempre criava para si. A sua maior determinação na vida era fugir do amor e, até então, ela conseguia escapar com maestria.

Porém, azar do medo.
E sorte dela que ele não desistiu.

Maybe I’m Amazed, Sir James Paul McCartney

Cheguei ao aeroporto faltando vinte minutos para a saída do voo. Antes o trânsito caótico de São Paulo quase me levara à loucura com medo de perder a volta para casa. A chuva – que se escondera durante os três dias que passei na cidade – caía generosamente e eu não pude deixar de pensar que aquilo era um sinal de tristeza pela minha ida. Ou de pena. Porque ao decolar o avião, eu não pude impedir meu choro.

Pela estreita janela do airbus eu não enxergava nada além de um solitário fio de água que, com a velocidade do avião contra o vento, lutava para se manter ali e me acompanhar na viagem. E eu chorei de saudade, de felicidade, medo e gratidão ao mesmo tempo. Mas aí eu pensei nos Beatles e let it be.

Então busquei o livro Relato de um Náufrago do García Márquez e tentei me debruçar em outro mundo, enquanto deixava minha mente distinguir se o que eu vivi era sonho ou realidade.

Às 11h da manhã lá estava em frente ao Estádio Morumbi, esperando o maior show da minha vida. Esperando o Paul McCartney. E ali, na fila imensa e sob o sol da terra da garoa (?), eu teria que ficar até as 17h30, quando os portões seriam abertos. Como distração, adotei todas as manias possíveis: passar protetor solar excessivamente, tomar água a cada cinco minutos sem pensar na vontade de fazer xixi posterior, verificar se estava com o meu ingresso mesmo e observar. Observei o mundo de maneira tão ampla e reduzida (por causa do espaço) que me surpreendia e congelava, como se tudo fosse uma criação da minha mente. Vi meus amigos comprarem camisetas, outros brigarem com os penetras da fila, vi a euforia causada por uma foto do Paul McCartney, vi uma tentativa de amor frustrada e um desengano do amor,  vi mãe e filho, Minas Gerais, Natal, São Paulo e muita paixão junta, a mesma paixão em todos os corações. E um sósia de Paul McCartney saído da capa do Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band.

Já dentro do estádio eu lembro de achar que a eternidade era mais curta que a espera pela combinação de ponteiros do relógio em 21h30. Mas como um bom lord inglês, pontualmente Sir James Paul McCartney apareceu e eu só recordo que não conseguia sentir nada além de deslumbramento (tal qual na música Maybe I’m Amazed). Não sei se chorei, se ri, se gritei ou se fiz tudo junto… Acho que permaneci imóvel até ouví-lo dizer em português um lindíssimo “boa noite”. O mais lindo “boa noite” que já ouvi. Porque aí eu flutuei, como sempre quis fazer desde criança.

Eu não preciso dizer aqui o set list, isso todo mundo sabe. Não, também não gravei vídeos nem fiz fotos durante o show, fui de mãos vazias e coração aberto, porque, para mim, era um encontro entre eu e o meu beatle favorito, o meu querido Paulie, como eu o chamo carinhosamente na intimidade. Sim, ainda era um encontro a dois mesmo com outras 64 mil pessoas no mesmo lugar. Porque só eu sei o que sinto ao ouvir cada som que o Paul toca, cada palavra que ele diz, cada gesto que ele faz. Porque só eu posso amá-lo como eu amo.

Não é fanatismo, nem absurdo. Eu não sou a mesma pessoa de antes. E mesmo agora, pouco mais de duas semanas após, eu me dou conta que não consegui perceber a real dimensão de ter visto Paul McCartney ao vivo. Muito mais que uma prova dos nove para saber se ele ainda está com uma disposição igual a dos seus 20 anos (até porque eu não pude vê-lo tocar antes e, portanto, não posso comparar), estar ali, ouvindo clássicos como Let it Be, Eleanor Rigby, A Day in The Life, Something, Yesterday, Band On The Run, My Love… e sentindo toda a riqueza deles… foi uma maneira de me definir daqui para a frente. Um guia, uma renovação.

Por mais que eu tente explicar o impacto da Up and Coming Tour na minha vida, não há palavras que definam. Diante de tanta beleza, carisma, talento e doçura de um tio de 68 anos, eu só consigo expressar o que há de mais simples em mim: felicidade.

Obrigada por existir, Paul McCartney.
Amo você, de verdade. Porque é o que eu posso oferecer a alguém que, desde o primeiro dia que entrou na minha vida, só me trouxe o que há de melhor no mundo.

Nessa hora senti o avião pousar em Natal. Através da janela, vi as luzes da minha cidade, já não havia mais chuva. Aí me veio a resposta: sim, a realidade é um sonho. Dos bons. E cheio de balões brancos cobrindo o céu.

Foto: Marcos Hermes.

Para uma nova esperança, a metamorfose

“A esperança não significa certeza, significa a possibilidade de um caminho.”

Morin, 17/09/2010

Edgar Morin dispensou o tradutor e arriscou um português (que também parecia espanhol) com sotaque francês para falar sobre “O Destino da Humanidade” a milhares de pessoas que lotaram a Praça Cívica do Campus da UFRN nesta sexta-feira, 17.

Morin falou sobre Globalização, fez críticas ao desenvolvimento histórico da humanidade, afirmou que conhecimento não significa verdade e alertou para uma nova esperança necessária à garantia de uma vida melhor e em comunhão na Terra.

Segundo ele, os humanos estão cada vez mais dispersos e as atuais gerações estão carentes de novas perspectivas. Assim, os problemas ambientais, sociais e econômicos que o mundo enfrenta não conseguem ser resolvidos por causa dessa dispersão. Portanto, ou nos deixamos levar a uma completa destruição ou optamos por iniciar um processo de metamorfose.

Essa metamorfose seria uma reforma da vida, onde os valores humanos ganhariam destaque. Para Edgar, a grande poesia está em reunir tudo o que as pessoas podem produzir de bom, tais como o lazer, a arte, o amor, a amizade, a comunicação, etc, sem as imposições do desenvolvimento como processo de reação e destruição. Ele aponta o sentimento de comunhão como a melhor forma de encontrar o caminho para a metamorfose, ou seja, para um novo pensamento, uma nova forma de conhecimento, enfim, uma educação mais ampla e eficaz.

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Twitter, Restart e a falta de segurança virtual

No Twitter pode acontecer tudo. Ou quase tudo, para que não me rotulem de extremista. O fato é que, desde uma hashtag criada por pura diversão até um vírus desenvolvido para roubar sua senha, qualquer coisa lançada no Twitter terá algum impacto.

E foi exatamente o que aconteceu. Desde ontem um malware circula na rede afetando as contas dos usuários. De acordo com informações do Portal G1, os links receberam cerca de 150 mil cliques.

Tudo começou com a falsa notícia sobre um grave acidente com o integrante da Banda Restart, o Pe Lanza. Depois o vírus começou a circular em uma suposta justificativa para o ataque à rede e, finalmente, em outro link malicioso prometendo fotos da Sabrina Sato sem roupa e acompanhado da hashtag #octnefx. Bastava um simples clique e as mensagens eram replicadas, espalhando o vírus por todo o Twitter. Há informações ainda que outros dois vírus estejam circulando, um que fala sobre uma suposta briga entre Serra e Dilma e outro sobre como acabar com os ataques do vírus.

Segundo o criador do vírus, sua intenção era mostrar para a administração do Twitter a falha na programação do site. Se foi isso ou não, o Twitter tratou de excluir a conta do usuário “espertinho”. De todo modo, creio eu, espalhar uma ameaça não é a melhor forma de colaborar com algo ou alguém.

Para evitar transtornos, foi recomendado trocar a senha e revogar o acesso dos aplicativos à conta, além de limpar o cache do navegador. Feito isso, aparentemente não há com o que se preocupar, já que o vírus não afeta o computador. Eu encontrei duas ameaças armazenadas no meu PC quando fiz o escaneamento com o antivírus; não posso afirmar que é resultado do link do Twitter, mas todo cuidado é pouco. Excluí e agora estou mais tranquila.

Mas por que trouxe esse assunto pra cá? Porque há poucos dias o Twitter enviou mensagens aos usuários para explicar sobre algumas mudanças que pretendem aumentar a segurança na rede. As atualizações referem-se aos aplicativos e ao encurtador de URL do próprio Twitter.

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Porque sempre precisei de atenção…

Parei para ouvir Legião Urbana depois que li uma matéria do Estadão sobre o legado digital deles. Pelo que vi, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá tentam resgatar histórias e materiais sobre a banda com a colaboração dos fãs, que possuem materiais exclusivos como ingressos, matérias, vídeos, fotografias e tudo o mais. Para isso, foi criado um site, uma espécie de “rede social” para reunir os eternos fãs da Urbana Legio Omnia Vinci.

O meu primeiro disco do Legião foi presente de uma amiga da minha mãe, a Verônica. Eu tinha 14 anos e o álbum O Descobrimento do Brasil (1994) significava um presente antecipado de 15 anos. Foi a trilha sonora da minha adolescência, mais do que Beatles, admito. A voz intensa do Renato Russo, os diferentes sons de cítara, dobro e bandolim que constavam na maioria das faixas do álbum e as letras cheias de sentimentos que iam da saudade à solidão, da angústia ao desapego, da omissão ao protesto marcaram o momento em que eu tentava me definir diante do mundo.

Eu devorei cada pedacinho daquele cd, da capa à contracapa, das fotografias às letras, dos códigos de registro das músicas aos créditos de sua produção. E o aviso “ouça no volume máximo” foi religiosamente obedecido.

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Too busy to myself…

Amanhã eu tenho tanta coisa pra fazer.

Sabe, nada tão saudável. Não vou acordar cedinho, nem me alongar, correr ou nadar. Meu café da manhã será fora de hora e não terá frutas, nem suco. Me entupirei de cafeína para curar a ressaca de uma noite não dormida.

Nada farei de tão musical também. Não vou aprender a tocar gaita de novo, nem cantar no chuveiro… Não vou enviar uma música para um amigo, nem baixar novos discos. Muito menos dançar. Só vou ouvir Beatles, porque sem eles meus dias não seriam meus e porque, para mim, é uma lei ouví-los.

Também não vou fazer algo tão divertido, como jogar videogame com o irmão, escrever cartas para os amigos, ler um livro do Saramago ou a biografia dos Beatles, mandar mensagem de texto para um cara especial, ir ao cinema ou fotografar, testando sempre a opção macro.

Ainda vai faltar-me coisas saborosas, como comer sauduíche de peito de peru e presunto do Subway, tomar açaí e gastar uma grana com trufas de torta alemã para a família. Provavelmente não vou comer lasanha também, nem tomar capuccino. Nem estará no cardápio a salada que minha tia faz, nem o milk-shake da minha mãe, nem o cuscuz da minha vó.

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140 caracteres da discórdia

Hoje foi um dia atípico no Twitter. Creio que aqueles que, assim como eu, dedicam parte do seu dia à ferramenta, concordam com tal afirmação, afinal, alguns dos tópicos mais comentados do site debatiam sobre a morte do ilustre escritor José Saramago, o aniversário do mestre Paul McCartney, a venda do manuscrito da música “A Day In the Life”, etc. O dia ficou dividido entre a celebração da vida de um mestre e a ida de outro, que muito orgulhou aqueles que tem a língua portuguesa como língua nativa.

Porém, sem sombra de dúvida, o Trending Topic¹ que mais mobilizou os usuários brasileiros no Twitter foi o tópico envolvendo o nome da candidata à presidência Mariana Silva (PV). A polêmica ocorreu por causa de algumas postagens no Twitter da ex-senadora sobre a notícia da morte do José Saramago. Aparentemente, Marina pareceu concordar com internautas que criticaram o escritor por seu ateísmo.

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Você se importa com sua rede social?

Nos últimos dias 10, 11 e 12 de junho ocorreu, na cidade de Campina Grande (PB), o XII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste, o Intercom Regional.

E, como pesquisadora dedicada que sou, estive participando da Jornada de Iniciação Científica, o conhecido Intercom Júnior, modalidade para estudantes de graduação. Lá apresentei o artigo As redes sociais e sua apropriação para comunicação local e alternativa no RN, explicando um pouco como funciona a interação dentro de comunidades virtuais do Orkut.

Esse estudo tenta, basicamente, mostrar o quão é importante focar no que as pessoas falam na internet e não apenas achar que um simples clique transforma algo. Assim como nas relações que construímos no âmbito offline, a qualidade deve ser igualmente importante nas relações online. De que adianta cultivar um número gigante de “amigos”, de “comunidades” ou de “seguidores” se não acrescento absolutamente nada na vida deles (real e virtual)?

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