Maybe I’m Amazed, Sir James Paul McCartney

Cheguei ao aeroporto faltando vinte minutos para a saída do voo. Antes o trânsito caótico de São Paulo quase me levara à loucura com medo de perder a volta para casa. A chuva – que se escondera durante os três dias que passei na cidade – caía generosamente e eu não pude deixar de pensar que aquilo era um sinal de tristeza pela minha ida. Ou de pena. Porque ao decolar o avião, eu não pude impedir meu choro.

Pela estreita janela do airbus eu não enxergava nada além de um solitário fio de água que, com a velocidade do avião contra o vento, lutava para se manter ali e me acompanhar na viagem. E eu chorei de saudade, de felicidade, medo e gratidão ao mesmo tempo. Mas aí eu pensei nos Beatles e let it be.

Então busquei o livro Relato de um Náufrago do García Márquez e tentei me debruçar em outro mundo, enquanto deixava minha mente distinguir se o que eu vivi era sonho ou realidade.

Às 11h da manhã lá estava em frente ao Estádio Morumbi, esperando o maior show da minha vida. Esperando o Paul McCartney. E ali, na fila imensa e sob o sol da terra da garoa (?), eu teria que ficar até as 17h30, quando os portões seriam abertos. Como distração, adotei todas as manias possíveis: passar protetor solar excessivamente, tomar água a cada cinco minutos sem pensar na vontade de fazer xixi posterior, verificar se estava com o meu ingresso mesmo e observar. Observei o mundo de maneira tão ampla e reduzida (por causa do espaço) que me surpreendia e congelava, como se tudo fosse uma criação da minha mente. Vi meus amigos comprarem camisetas, outros brigarem com os penetras da fila, vi a euforia causada por uma foto do Paul McCartney, vi uma tentativa de amor frustrada e um desengano do amor,  vi mãe e filho, Minas Gerais, Natal, São Paulo e muita paixão junta, a mesma paixão em todos os corações. E um sósia de Paul McCartney saído da capa do Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band.

Já dentro do estádio eu lembro de achar que a eternidade era mais curta que a espera pela combinação de ponteiros do relógio em 21h30. Mas como um bom lord inglês, pontualmente Sir James Paul McCartney apareceu e eu só recordo que não conseguia sentir nada além de deslumbramento (tal qual na música Maybe I’m Amazed). Não sei se chorei, se ri, se gritei ou se fiz tudo junto… Acho que permaneci imóvel até ouví-lo dizer em português um lindíssimo “boa noite”. O mais lindo “boa noite” que já ouvi. Porque aí eu flutuei, como sempre quis fazer desde criança.

Eu não preciso dizer aqui o set list, isso todo mundo sabe. Não, também não gravei vídeos nem fiz fotos durante o show, fui de mãos vazias e coração aberto, porque, para mim, era um encontro entre eu e o meu beatle favorito, o meu querido Paulie, como eu o chamo carinhosamente na intimidade. Sim, ainda era um encontro a dois mesmo com outras 64 mil pessoas no mesmo lugar. Porque só eu sei o que sinto ao ouvir cada som que o Paul toca, cada palavra que ele diz, cada gesto que ele faz. Porque só eu posso amá-lo como eu amo.

Não é fanatismo, nem absurdo. Eu não sou a mesma pessoa de antes. E mesmo agora, pouco mais de duas semanas após, eu me dou conta que não consegui perceber a real dimensão de ter visto Paul McCartney ao vivo. Muito mais que uma prova dos nove para saber se ele ainda está com uma disposição igual a dos seus 20 anos (até porque eu não pude vê-lo tocar antes e, portanto, não posso comparar), estar ali, ouvindo clássicos como Let it Be, Eleanor Rigby, A Day in The Life, Something, Yesterday, Band On The Run, My Love… e sentindo toda a riqueza deles… foi uma maneira de me definir daqui para a frente. Um guia, uma renovação.

Por mais que eu tente explicar o impacto da Up and Coming Tour na minha vida, não há palavras que definam. Diante de tanta beleza, carisma, talento e doçura de um tio de 68 anos, eu só consigo expressar o que há de mais simples em mim: felicidade.

Obrigada por existir, Paul McCartney.
Amo você, de verdade. Porque é o que eu posso oferecer a alguém que, desde o primeiro dia que entrou na minha vida, só me trouxe o que há de melhor no mundo.

Nessa hora senti o avião pousar em Natal. Através da janela, vi as luzes da minha cidade, já não havia mais chuva. Aí me veio a resposta: sim, a realidade é um sonho. Dos bons. E cheio de balões brancos cobrindo o céu.

Foto: Marcos Hermes.

4 pensamentos sobre “Maybe I’m Amazed, Sir James Paul McCartney

  1. Pingback: Tweets that mention Maybe I’m Amazed, Sir James Paul McCartney « neoBudega -- Topsy.com

  2. Nossa!!!!!!!!!!!!
    Me arrepiei diante do depoimento de Poliana,ela provavelmente estava na mesma fila que eu, pois o Paulzinho Sgt Peppers stava ao meu lado.
    Tudo que ela descreveu eu senti exatamente igual…..
    A unica diferença é que moro em São Paulo , perto do estádio do morumbi, e pensava, ele veio até mim, posso ir até a pé se quizer, pois fiquei por muito tempo pensando em que país iria para ver Paul, pois a resposta de sua vinda ao Brasil nunca acontecia!!!
    E comigo o que aconteceu no dia seginte foi essa mesma saudades , gratidão a Deus , e quando liguei o som do carro e tocou “Venus e Mars” me veio a entrada dele no palco e a sensação da energia e amor daquele momento e comecei a chorar de emoção!!!!!

  3. AHHHHHHHH MEU DEUS QUE TEXTO LINDO! Lindo, lindo, lindo, absurdo de lindo. Definitivamente, também o melhor show da minha vida… Cara, parabéns, você traduziu em palavras muito bem tudo que significou não só pra você, mas para todos os Beatlemaníacos que puderam apreciar esse espetáculo!

  4. Cara, eu sou tua fã. Fiquei feliz quando soube que você ia pro show, mas não fiquei surpresa. Sei que você é destemida e tenho orgulho de você. Parabéns! Parabéns pela viagem e parabéns pelo texto. Sempre venho aqui quando você escreve, na esperança de um dia escrever parecido, pois a paixão de escrever não se foi com o jornalismo, mas parece que só aumentou. Vai entender…. Te adoooru Pó o/

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