Para uma nova esperança, a metamorfose

“A esperança não significa certeza, significa a possibilidade de um caminho.”

Morin, 17/09/2010

Edgar Morin dispensou o tradutor e arriscou um português (que também parecia espanhol) com sotaque francês para falar sobre “O Destino da Humanidade” a milhares de pessoas que lotaram a Praça Cívica do Campus da UFRN nesta sexta-feira, 17.

Morin falou sobre Globalização, fez críticas ao desenvolvimento histórico da humanidade, afirmou que conhecimento não significa verdade e alertou para uma nova esperança necessária à garantia de uma vida melhor e em comunhão na Terra.

Segundo ele, os humanos estão cada vez mais dispersos e as atuais gerações estão carentes de novas perspectivas. Assim, os problemas ambientais, sociais e econômicos que o mundo enfrenta não conseguem ser resolvidos por causa dessa dispersão. Portanto, ou nos deixamos levar a uma completa destruição ou optamos por iniciar um processo de metamorfose.

Essa metamorfose seria uma reforma da vida, onde os valores humanos ganhariam destaque. Para Edgar, a grande poesia está em reunir tudo o que as pessoas podem produzir de bom, tais como o lazer, a arte, o amor, a amizade, a comunicação, etc, sem as imposições do desenvolvimento como processo de reação e destruição. Ele aponta o sentimento de comunhão como a melhor forma de encontrar o caminho para a metamorfose, ou seja, para um novo pensamento, uma nova forma de conhecimento, enfim, uma educação mais ampla e eficaz.

Dentro dessa proposta, a Terra seria vista como pátria numa integração da diversidade de valores de cada nação. “Isso não significa que o Brasil deixe de ser uma pátria, assim como a França”, diz. E cita a ambivalência do desenvolvimento econômico, que tanto pode dar melhores condições de vida às pessoas, fazendo com que elas viajem mais, consumam produtos que antes não consumiam, como pode levá-las a uma situação de miséria, de exclusão.

O filósofo fala sobre o poder da comunicação imediata através da telefonia e da internet, da globalização que só se preocupa com a expansão da economia de mercado, do pensamento político que também só observa a economia e da nossa falta de consciência em relação ao direito comum. “Há uma resistência cultural ao processo de homogeinização do Ocidente”.

Temos os mesmos problemas vitais, e não conseguimos resolvê-los. A esperança de acabar com esses problemas obedecem três princípios, segundo Edgar. O improvável seria o primeiro princípio, pois acreditamos que ele pode ser capaz de resolver qualquer problema de uma hora para outra; o segundo seria as possibilidade criadoras que surgem em tempos de crise, mas que se calam numa situação sem adversidades e, por fim, a aspiração de viver em total harmonia seria o terceiro princípio que nos leva a alimentar esperanças de fazer parte de uma humanidade melhor. No entanto, há bastante fragilidade em obter uma conexão que estabeleça essa harmonia.

Em suma, Edgar Morin expôs que o “destino da humanidade” é uma incógnita. Não se sabe, atualmente, qual o nosso destino. O que sabemos de fato é que ele será comum a todos, seja bom ou ruim. Brasileiros, franceses, americanos, ingleses, indianos, chineses, entre outros, vão para o mesmo lugar, independente das diferenças sócio-culturais e político-econômicas. Daí a necessidade de simbiose humana e cultural que Morin tanto fala, daí a nossa necessidade de humanização, que é buscada desde antes do Homo sapiens.

Impressões

Logo no início de sua palestra, que demorou quase uma hora para começar, várias pessoas amontoaram-se ao palco para ficar mais próximo ao intelectual simpático e vivaz. Fiquei surpresa ao descobrir que Morin completara 89 anos em julho. Provavelmente seu dom de propagar conhecimento o mantenha mais vivo que qualquer outro com menos idade ali presente.

Antes, a Orquestra Sinfônica da UFRN fez uma apresentação marcada pela intensidade da origem humana, contando a história de Adão e Eva em alto e bom som de flautas, violinos, trompetes e outros instumentos que eu não soube identificar só com o ouvido.

Porém, o mais impressionante de tudo, sem dúvida, foi ver uma praça lotada em pela sexta-feira à noite para ouvir o que Edgar Morin tinha para nos dizer sobre educação. Afinal, sempre às sextas os jovens da cidade, principalmente, escolhem barzinhos para se divertir e compartilhar assuntos que em sua grande maioria não são de interesse da humanidade. De certa forma, ainda podemos ter um pouco de esperança.

4 pensamentos sobre “Para uma nova esperança, a metamorfose

  1. Apesar da surpresa pelo número de pessoas presentes, vi muita gente sequer entender o que ele dizia, e, mesmo entendo, quantas poderiam realmente en-ten-der.

    Um ponto ironicamente cômico, ao meu ver, foi ele falar da homogeneidade, porque em pleno século 21, com ele, um dos maiores pensadores do século, sendo francês, tem de se deparar com as situações que vão de encontro ao que ele diz, justamente em sua pátria.

    Em suma, duas frases me marcaram: “a história é uma construção e uma desconstrução.” e “no inesperado há uma possibilidade.”

    Em particular a segunda, porque gosto de pensar em possibilidades, mesmo que inesperadas. Foi mais uma identificação com a fala dele mesmo.

    p.s. A análise e a síntese ficaram muito bem feitas. Congratz.
    🙂

  2. apesar de ter lido o post na mesma hora q vc publicou, só venho opinar agora no meu lapso criativo.. kkk

    como sempre, mt bem escrito, se eu ja tava com inveja por n ter Morin aqui em Aracaju, depois q li seu relato ela só aumentou. so ficou devendo um streaming do evento p acessiblizar aos pobres ;B mas, em seu post anterior, seu sofrimento só pra usar o twitter já explicou q a tecnologia conspirou contra vc. ;*

    • Putz, a gente só sabe o que perdeu, depois que perdeu.

      Seu resumo me ajudou a encucar uma porrada de idéias, a maioria questionando algumas das idéias do pensador que você expôs, à título de discordância mesmo. xD

      Mas, sem ter visto o homem, não pode discordar de nada, pois estaria usando teu resumo só e, po, nenhum pensador deve fazer isso, ainda mais no blog dos outros.

      Mesmo assim, obrigado pelos pensamentos, moça!

      p.s: foi legal te conhecer.

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