Too busy to myself…

Amanhã eu tenho tanta coisa pra fazer.

Sabe, nada tão saudável. Não vou acordar cedinho, nem me alongar, correr ou nadar. Meu café da manhã será fora de hora e não terá frutas, nem suco. Me entupirei de cafeína para curar a ressaca de uma noite não dormida.

Nada farei de tão musical também. Não vou aprender a tocar gaita de novo, nem cantar no chuveiro… Não vou enviar uma música para um amigo, nem baixar novos discos. Muito menos dançar. Só vou ouvir Beatles, porque sem eles meus dias não seriam meus e porque, para mim, é uma lei ouví-los.

Também não vou fazer algo tão divertido, como jogar videogame com o irmão, escrever cartas para os amigos, ler um livro do Saramago ou a biografia dos Beatles, mandar mensagem de texto para um cara especial, ir ao cinema ou fotografar, testando sempre a opção macro.

Ainda vai faltar-me coisas saborosas, como comer sauduíche de peito de peru e presunto do Subway, tomar açaí e gastar uma grana com trufas de torta alemã para a família. Provavelmente não vou comer lasanha também, nem tomar capuccino. Nem estará no cardápio a salada que minha tia faz, nem o milk-shake da minha mãe, nem o cuscuz da minha vó.

Ah! Meu dia será ausente de atitudes responsáveis. Não vou, mais uma vez, reclamar com a moça mal-educada que insiste em jogar o papel de bala na rua. Creio, também, que ainda vou gastar mais água e energia do que deveria. Admito que vou ignorar o cidadão que pede dinheiro ou o garoto que tenta vender balas no ônibus, mesmo com acentuada tristeza no coração. Eu também não vou ligar para uma Ong protetora de animais vir buscar o cachorro que anda sozinho, mesmo chorando toda vez que o vejo. Vou dormir tarde e não marcarei o retorno ao médico.

Serei chata, egoísta, indiferente, mal-criada, covarde e esnobe certamente. Nitidamente, vou sustentar minha chatice e responder de maneira impaciente minha mãe, avó ou irmão. Com este, também não vou querer dividir o computador. Nem vou ter coragem de telefonar para alguém e mostrar o quanto me importo. É certo que não vou sorrir para o estranho que senta ao meu lado ou que espera na mesma fila que eu… ao contrário, mostrarei um semblante composto de testa franzida e sobrancelha direita arqueada como prova da minha desconfiança. Sobrará, possivelmente, até para o meu cachorro, que não receberá, talvez, carinho na barriga, nem beijos no cocuruto.

Não vou cultivar o bom-humor. Sei que vou fazer cara feia para as piadas dos amigos e fingir estar ofendida com todas elas. Vou estar de TPM grau extremo e chorar e me irritar no mesmo segundo. Em caráter adicional, não serei carinhosa e vou me esquivar de elogios e demonstrações de afeto muito efusivas. Apertos de mão e sorrisos amarelos serão o meu forte.

Também atrasarei minha vida, motivada por uma preguiça doentia. Adiarei, pela milésima vez, o planejamento das minhas viagens. Perderei mais um dia no estudo do inglês. Não economizarei dinheiro corretamente, nem para as viagens, nem para o show do Paul McCartney. E não estudarei o suficiente.

No segmento romance-namoro-amor-paixão-ternura, não vou ter peito para ir lá e falar com todas as sílabas e letras que não sou otária e que o acho um puto. Nem o cara que já foi tão especial ouvirá que eu acho uma merda sem tamanho a gente se evitar. Nem vou ter cara-de-pau para convidar um tal moço, mais doce e confuso que os outros, para sair, conversar, ver um filme e entender se eu gosto dele ou se eu só quero brincar de ilusão e provocá-lo. Quanto a um quarto rapaz… não vou dizer-lhe que só o amo como amigo. Aliás, vai ser mais um dia em que não vou decidir se quero permanecer solteira ou se vou me permitir ser namorada de alguém um dia, porque a minha desconfiança me diz que eu sempre me saboto. Sempre. Porque sofrer de amor é tão mais poético e nobre que encorajar-se e viver.

Mas isso tudo pode esperar, meu tempo é mínimo, então cuidarei do que é urgente. Tenho que quitar dívidas, mandar e-mails, tuítar… Provavelmente, num lapso de auto-percepção, sentirei cãimbra ao caminhar, adormecerei encostada à janela do ônibus, me estressarei com o trânsito, comerei de forma irregular, cuidarei, religiosamente, da minha fazenda virtual e enfrentarei a madrugada tremendo de frio e insone por teimosia e busca precoce da loucura. E só me dedicarei a isso, sentindo que aproveitei 100% o dia para “resolver coisas”. E vou estar absurdamente cansada.

Não sei porque, ultimamente, chego ao fim do dia achando que está tudo distorcido… Será que é por que sempre faço o contrário do que acho que devo fazer? Por que evito dias mais saudáveis, divertidos, musicais, organizados, saborosos, bem-humorados e românticos por achar que é complicado vivê-los? Por que continuo na mesmice, mesmo sabendo que tudo nela é chato?

That’s a good question! Bom, minha mãe diz que eu tenho medo de me entregar a intensidade da vida…

Droga! É demasiado tarde, penso nisso depois, tenho muitas coisas para fazer.

5 pensamentos sobre “Too busy to myself…

  1. Esse é um dos textos mais descarados que já fiz, Breno.
    Mas é como você diz… ao mesmo tempo que é autobiográfico, não é.

    Thanks for the visit… kisses ;*

  2. Caramba Polli…
    Acho que você acabou por retratar um pouco da vida de cada um… Todos passamos pelas mesmas coisas e sempre terminamos por não dar importância às coisas mais simples, em detrimento do mais egoísta e etc………..

    Adorei seu texto. Ficou ótimo, perfeito! Te enxerguei em cada palavra aqui!

    Beijos.

  3. É, moça… eu penso que, as vezes, que a sinceridade textual dos nossos eu-líricos não têm limites.
    Ou os têm em demasiado.

    Sabe essa tal intensidade? Talvez seja justamente achar quando não se procura.
    Só não pensa muito sobre isso, Polliana.

    Cê pode acabar doente ou louca de verdade.

    (Seria chato perder uma pessoa e seus maravilhosos textos assim).

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s