140 caracteres da discórdia

Hoje foi um dia atípico no Twitter. Creio que aqueles que, assim como eu, dedicam parte do seu dia à ferramenta, concordam com tal afirmação, afinal, alguns dos tópicos mais comentados do site debatiam sobre a morte do ilustre escritor José Saramago, o aniversário do mestre Paul McCartney, a venda do manuscrito da música “A Day In the Life”, etc. O dia ficou dividido entre a celebração da vida de um mestre e a ida de outro, que muito orgulhou aqueles que tem a língua portuguesa como língua nativa.

Porém, sem sombra de dúvida, o Trending Topic¹ que mais mobilizou os usuários brasileiros no Twitter foi o tópico envolvendo o nome da candidata à presidência Mariana Silva (PV). A polêmica ocorreu por causa de algumas postagens no Twitter da ex-senadora sobre a notícia da morte do José Saramago. Aparentemente, Marina pareceu concordar com internautas que criticaram o escritor por seu ateísmo.

Após anunciado o falecimento de Saramago, Marina Silva postou o seguinte comentário em seu Twitter (@silva_marina), por volta das 9h de hoje:

Em seguida, os usuários Medeiros (@wvmedeiros) e Iara C. Meirelles (@iara_meirelles) enviaram os seguintes posts como reply para a @silva_marina, questionando como ela podia elogiar alguém como o Saramago, que não acreditava na existência de Deus:

Até aí, tudo bem. A polêmica surgiu quando os administradores do perfil da candidata “retweetaram” tais mensagens. Foi convencionado, pelos próprios usuários do Twitter, que uma mensagem “retweetada”, ou seja, qualquer mensagem replicada por outro usuário que não o autor original, é uma apropriação do que o outro disse em concordância. Em suma, se você “retweeta” (RT), você está concordando com o que o outro disse.

Para piorar a situação, no RT não foi identificado que as mensagens eram replies (respostas) enviadas à Marina Silva. Convencionou-se, então, que realmente era uma opinião da candidata. Exatamente na hora das postagens eu estava acompanhando minha Timeline (página com as atualizações mais recentes de quem sigo) vi os RT’s. Protestei dizendo que o fato de Saramago ser ateu não desmerecia o trabalho dele, como vocês podem ler aqui. Logo em seguida, veio o alerta do perfil de Marina Silva:

Só então busquei a home do perfil de Marina para entender o que isso significava, afinal, tudo que tinha sido postado eu li, então o que faltava? Foi aí que vi os seguintes tweets:

Conforme a justificativa, os RT’s serviam para justificar as respostas dadas a @wvmedeiros e @iara_meirelles, mas se não vemos as respostas, como vamos entender as perguntas? Replies só podem ser acompanhados pele remetente, destinatário (óbvio) e por usuários que seguem ambos. Sendo assim, ficou claro que a equipe que administra o perfil da candidata não sabia ou não atentou para isso. O Geraldo Alckmin (@geraldoalckmin), por exemplo, observou bem essa questão e sempre insere um pontinho (.) antes da @nomedapessoa para quem ele vai responder, porque assim a mensagem é compartilhada com qualquer seguidor.

O resultado disso foi uma chuva de tweets revoltados contra a suposta “opinião” da candidata levaram Marina Silva aos Trending Topics, porém, de forma negativa. Saiu de cena a equipe de gerenciamento de redes sociais, responsável pela gafe, e entrou a equipe de gerenciamento de crise. Digo isso porque uma atualização no Twitter pode não fazer alguém perder uma disputa eleitoral, mas pode causar a perda de alguns votos. De todo modo, é interessante tomar esse caso como exemplo, não só os políticos, como também suas equipes de marketing e assessoria, além de comunicadores em geral e eleitores. Situações como essa geram incômodo e gasto de tempo para tentar consertar um mal entendido que podia ter sido evitado se existisse um pouco mais de atenção na hora de operar um sistema informático. Como na internet tudo se espalha muito rápido e as pessoas que se inserem nesse meio tem voz para dizer o que pensam, sem moderação de conteúdo, Marina saiu perdendo. A remediação veio rápido, mas a “gafe”, como alguns jornais chamaram, é algo que vai ficar marcado até o dia das eleições. Ainda depois do pronunciamento da candidata contrário ao casamento gay, outra polêmica. É uma soma, que não define a competência política de Marina, mas que afeta sua atual condição na corrida para a presidência.

O mais importante nas redes sociais é, sem dúvida, observar o que dizem as pessoas, mas conhecer todo o esqueleto, todas as entranhas de links, atalhos, linguagens e estilos de uma ferramenta de rede social como o Twitter, Facebook, Orkut, etc, é primordial antes de entrar em um site desses para não errar. Perfis pessoais tem a mordomia de pecar e deletar o post antes mesmo que haja algum dano, provavelmente não haverá repercussão e está tudo bem. Perfis corporativos não tem esse direito, infelizmente, principalmente com usuários rápidos no gatilho do PrintScreen e prontos para criticar.

Para conferir a repercussão do Trending Topic, clique aqui.

¹Assuntos mais comentados no Twitter. Os Trending Topics podem ser locais (ex. Brasil) ou geral (Wordwilde)

Foto destaque from here.

6 pensamentos sobre “140 caracteres da discórdia

  1. É bom escolher bem não só quem vai cuidar da sua campanha, mas quem vai falar em seu nome (seja na coletiva de imprensa, seja no twitter). Isso foi cagada de quem não se deu o trabalho de conhecer a ferramenta.
    Principalmente sabendo que, pra dar porrada, o povo tá sempre disposto.

  2. Pingback: Tweets that mention 140 caracteres da discórdia « neoBudega -- Topsy.com

  3. Foi um vacilo e tanto da equipe da Marina. Porque a esmagadora maioria dos usuários do Twitter pensam que quem atualiza o perfil dela é ela mesma, sem saber que também existe uma equipe de assessoria que também faz esse trabalho.

    Óbvio que a opinião das pessoas que foram retuitadas pela Marina são execráveis. Beira a inquisição. Saramago não deixou de ser um grande escritor por ser ateu, assim como Martin Luther King não deixou de ser um grande líder social por ser cristão. Uma coisa não impede a outra. Talento é talento e vice-versa, como diria Jardel.

    Acho a Marina bem segura quanto a algumas questões polêmicas, isso é importante para um político. A postura dela em relação à união homoafetiva foi deveras corajosa, ainda mais num país onde a moda é ser gay. Creio que ela começou a perder a eleição por aí. Eu acho-a competente, mas ela não deve ser a próxima presidente do Brasil.

  4. Por isso que eu sempre respondo para meus amigos quando eles perguntam por que eu não tenho twitter:

    “Ora, eu mal consigo administrar um orkut e um flickr, quanto mais um twitter”.

    Cada um tem que saber o limite de até onde vai sua rede social, né?

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