A ligação

Não se contentou com a última vez em que a viu. Ora, ela bateu a porta em sua cara recusando-se a ouví-lo com a desculpa que no momento tinha muito o que fazer. Resistiu por dois dias em telefoná-la, em vê-la, em ler os lamentos que ela publicava nas redes sociais. Tentou, mas já não aguentava, e decidiu que precisa dizer-lhe coisas, palavras que só ela merecia ouvir por ter sido tão rude e impaciente com ele. Então, pegou o telefone e discou apressado aquele conjunto de números que totalizavam 43.

Se odiaram na primeira vez em que se viram. Na verdade, criou-se um ressentimento estranho porque ela o olhou e não sorriu e porque ele a olhou demais. Até onde se sabe, nunca tinham trocado palavras nem olhares, aquele foi o primeiro registro de contato entre ambos e, por isso mesmo, ela não podia ficar com aquela sensação somente para si. Então, voltou-se para a melhor amiga e alertou:

– Olha lá o cara com a camisa vermelha.
– Tô vendo, o que tem? Gostou dele, né? – indagou a amiga, que tinha olhos amendoados, cheirava a doce e não sabia fazer piada.
– Claro que não, ficou louca? Ele é um metido, se você quer saber.
– Por que diz isso? Pra mim ele é gato e faz teu estilo.
– Quê? Ele… ele… ele é um metido, nada a ver comigo. – E finalizou o papo, com visível rancor do que a amiga havia dito.

Passaram-se dias quentes e estressantes até que se vissem novamente. Se encontraram em meio a prateleiras da biblioteca, mas dessa vez não se detestaram. O cheio de mofo dos livros a fez espirrar e ele, que achava obrigatório calar-se para preservar o silêncio do ambiente, se aproximou, murmurou desejos de saúde e sorriu. Paralizada e com o nariz levemente vermelho, ela só conseguia ver a covinha que se formava no lado esquerdo do rosto dele.

Todo o universo sabia que os dois tinham muito em comum. Os Beatles, insônia, dor-de-cabeça em abstinência ao café, coceira no joelho direito, gosto por cores monocromáticas, filmes de suspense e séries policiais, preguiça de ir a praia, rinite, meias coloridas, coleção de All Star, camisas xadrez, o sonho de fazer mochilão na América do Sul, fotografias em gaussian blur, leves tendências sadomasoquistas, Tim Burton, José Saramago, Freud, chá gelado, ovomaltine, lasanha, alergia a camarão e, principalmente, a teimosia.

O telefone chamou a primeira vez. A segunda. A terceira. Do outro lado da linha ninguém atendia. Ele deduziu que a mania dela cultivar o celular no modo silencioso era algo irritante, mas resolveu insistir e esperar até o último toque.

Assistia TV em casa, quando caía uma chuva forte e o frio parecia ser, ao mesmo tempo, amigo e carrasco. Foi quando alguém bateu à sua porta e ela, que raramente recebia visitas durante a semana, pensou que poderia ser alguém querendo atacá-la, mas logo notou que talvez tivesse abusado das sessões de Hitchcock naquele dia. Abriu a porta e lá estava ele, molhado e sorrindo, mas a única coisa que ela conseguia ver era a covinha do lado esquerdo do rosto dele.

Ela gostava de ouvir The Smiths quando estava triste. E, naquele dia, ela realmente estava. O som deles a levava para longe, mas ao mesmo tempo fazia com que ela lembrasse dele. Ela podia sentir o ônibus andar mais devagar, como se a paisagem quisesse ficar gravada a ela. Na verdade, o tempo realmente estava mais lento, principalmente quando ela sentia o cheiro de xampu do cabelo dele e podia sentir sua barba por fazer em sua nuca. Mas foi interrompida por seu celular tocando.

Eram 6 da manhã quando ele acordou e viu os poucos raios de sol, que escapavam pela abertura da janela mal fechada na noite anterior, cobrindo a pele dela. Era linda, com quadris em curvas leves, seios pequenos, cabelos ondulados e lábios rosados. Tinha tanto receio de ocupar espaço, que da mesma forma que adormecera, amanhecera. Estava intacta, exceto pela mecha de cabelo que ele afastou da frente de seu rosto.

Passou uma hora inteira a observando, quando iniciou um choro silencioso. As lágrimas saíam lentas e sem domínio. Sentiu tanto medo, sem porque, que ela fosse embora, que ele pudesse perder todo o calor do seu ventre, seus cafunés em dias frios, o barulho da sua risada, assim como seus beijos seguidos de mordidas ou a cara de emburrada que só ela fazia. Pior, se ela fosse, a viagem à Argentina que ele tinha prometido para o próximo verão não poderia acontecer e, assim, como ela ia aprender a dançar tango? As Season Finale das séries que acompanhavam também não iam ter mais graça sem o nervosismo que a motivava roer as unhas. Ele também não poderia mais comprar chocolate trufado, nem o mais novo lançamento literário do Saramago. Só poderia ouvir “Eleanor Rigby” dos Beatles, afinal, o Paul disse que era uma canção sobre solidão. Não! Não poderia, pensou, “Eleanor” era a preferida dela. Nem iria tocar o projeto das fotografias com Polaroid, então, venderia a câmera. As discussões sobre quem teria mais meias coloridas também não existiriam mais, nem os papos-cabeça durante a madrugada, que só terminavam quando ela começava a chorar por causa das injustiças sociais. Ele também não poderia mais ensiná-la a tocar gaita, nem discutir quando ela pulava em cima da cama. Fazer amor durante o banho, nunca mais. Também não comeria mais a torradinha com requeijão e chá de maçã que ela fazia aos domingos, nem ficaria ao lado dela quando ela ficava tonta por causa das cólicas de TPM, tampouco segurar sua mão a qualquer hora. Será que ela queria ir embora ao acordar?, perguntou-se. E, nesse instante, ela suspirou longamente e moveu a mão esquerda até a perna direita para coçar o joelho. Ele paralizou.

Tirou da bolsa o celular nervoso que só tocava quando ela não queria e viu que era o número dele. Deixou tocar mais duas vezes por medo e rebeldia e, então, atendeu.

Com a maior dor que sentia em seu corpo, mente e alma, passou pela porta e começou a caminhar sem rumo. Agora chorava em soluços. Não podia vê-la ir embora, então, ele mesmo o fez antes dela.

Quando acordou e não o viu, achou que ele tinha saído para buscar o café. Tomou banho, assistiu desenho animado na TV e ele não chegava. Telefonou uma, duas, três, quatro vezes, porque só conseguia realizar tarefas em quantidade par. Nenhum retorno. Tomou café sozinha, almoçou sozinha, jantou sozinha. Deitou-se às 21h, como raramente fazia, e, antes de adormecer, deixou lágrimas cair.

No dia seguinte ele estava a sua porta, com a mesma roupa do dia anterior e o espírito de quem tinha ficado anos sem vê-la. Recusou-se a ouvir qualquer desculpa, disse que tinha coisas importantes para fazer e pediu que ele fosse embora.

Antes mesmo que dissesse alô, ele se pronunciou:
– Eu amo você!

Ela respondeu:
– Eu sei.
– Você vai embora? – perguntou
– Você sabe que não, sabe que eu nunca faria isso com você.
– Posso voltar pra casa?
– Venha rápido ou você perde o jantar.
– Chego em dez minutos.

Desligou o telefone e o ficou aguardando em casa como sempre. Logo, ele apareceu e a encontrou na sala, com toda a beleza que ela não deixou de ter nem aos 68 anos. Sentou-se a seu lado e beijou-lhe as mãos prometendo nunca mais fugir. Depois, deitou-se em seu colo e adormeceu. Com o tempo e a memória afetada pela doença que o fazia esquecer até do seu próprio nome às vezes, a única coisa que ele não esquecia era de ligar pra ela e dizer que a amava, como fazia há 45 anos, desde a última vez em que brigaram. Ela, por sua vez, continuava a olhar devotamente para a aquela doce marca no lado esquerdo do rosto dele. Até o resto de suas vidas.

Photographs from here and here

5 pensamentos sobre “A ligação

  1. Pingback: Tweets that mention A ligação « neoBudega -- Topsy.com

  2. Minha amiga!! C é muito estigada fia!! Parabéns! Sério, muito massa mesmo! Deu p/ visualizar direitinho…td que foi descrito! Tem muito de vc ai nesse texto, né?
    Bjãoooooooooo!!

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