Do paraíso obscuro

Susie Salmon (Saoirse Ronan), salmão assim como o peixe, é uma doce adolescente de 14 anos com três paixões na vida: a família, Ray Singh (Reece Ritchie) e a fotografia. Mas, em 6 de dezembro de 1973, como narra a própria Susie, ela é assassinada por seu vizinho George Harvey, personagem de Stanley Tucci.

Esse é o ponto inicial de Um Olhar do Paraíso (The Lovely Bones, 2009), uma tradução do livro Uma Vida Interrompida de Alice Sebold, dirigida por Peter Jackson, famoso diretor da trilogia Senhor dos Anéis.

Lovely Bones possui dois tipos de abordagem, uma angelical e sonhadora, outra macabra e perversa. O que une as duas é o teor fantástico dos efeitos que Jackson insere em boa parte do filme, boa parte mesmo. E é nesse ponto que a história perde força.

Dono de três Oscars com The Lord Of Rings em 2003, Peter é um exemplo de que você pode desagradar querendo “fazer bonito”. O diretor pode ser genial e ter uma boa proposta, mas se exagerar quando não há necessidade, corre o risco de pecar por excesso e perder uma boa trama. E é o que acontece com Lovely Bones, quando o foco cai sobre os efeitos visuais, sobrepondo os conflitos dos personagens. Aliás, Peter até deixa uma marca de boa vontade em dar espaço para o sofrimento dos envolvidos na tragédia, mas pela falta de aprofundamento, muita coisa fica sem explicação ou não convence, o que faz o filme perder a continuidade e frustrar um pouco.

Alguns pontos isolados é o que salvam a história. A intensa atuação de Saoirse e Tucci, que concorreu ao Oscar de melhor ator coadjuvante por este papel; os diálogos de Buckley (Christian Thomas Ashdale) com o pai, interpretado por Mark Wahlberg, sobre visões com a irmã; o amor ingênuo entre Susie e Ray; a avó “politicamente incorreta” de Susan Sarandon e a ligação entre pai e filha são, na minha opinião, os fatos que humanizam o filme de modo realista e não decepcionam. A cena inicial em que Susan salva a vida do irmão é a melhor de todas, belo exemplo de algo que comove sem exagero poético ou visual.

Diferente do livro, a adaptação deixa as ideias soltas no ar. Não há clareza sobre o estupro, sobre a real crueldade do assassino em seus métodos. Por vezes parece que o filme dá a entender que Harvey é uma espécie de “salvador”, porque a morte das meninas é como um sonho para elas, afinal, transporta-nas para um mundo mágico e perfeito, que transmite felicidade. Susan não fez a passagem e se encontra num mundo “meio-termo”, mas não por sofrimento próprio e sim por preocupação com o desastre de sua família. E isso fica claro no fim que é dado ao personagem de Stanley, um fim fácil demais se comparado ao do livro. Fica a sensação de que ele não pagou pelo sofrimento causado.

Outra situação desconexa é a repentina decisão da mãe, vivida por Rachel Weisz, de largar tudo.  Na verdade, a decisão não é repentina, mas a abordagem dela pode passar despercebida se você não está atento. Ela entra no carro e vai embora e você fica se perguntando o porquê. A ausência do pai, Jack Salmon, após tentar vingar-se de Harvey e ser espancado quase que até a morte também é intrigante. De uma hora pra outra, uma peça-chave se desprende de tudo e se esconde. Digo isso porque o filme fica centrado no trio Harvey-Susie-Jack. Mas isso pode ser justificado pelo fator tempo, que no cinema é bem menos disponível que na literatura. Porém, a sensação é que os fatos foram jogados e não há espaço para questionar porque a trama precisa seguir.

Eliminando algumas cenas meio Lucy In The Sky With Diamonds, o que são a maior parte do filme – tá certo que o enredo se passa em 1973, mas não precisava tanto, os figurinos e penteados falam por si – e readaptando para algo mais realista, além de economizar nas referências a Ghost e Jogos Mortais (acreditem, me fizeram enxergar isso na cena em que Susie toma conhecimento de sua morte. O saturado branco em contraste com o sangue da menina misturado a lama é pesado demais e faz a cena parecer mais longa do que realmente é), Lovely Bones tem chances de ser adorável, ao mesmo tempo que assustador, dentro de um contexto menos cansativo. O que senti falta é de um filme menos espírita e mais alerta, porque histórias de psicopatas e pedofilia estão presentes na nossa vida sem fantasia e a arte serve pra denunciar isso.

No mais, a trilha, de autoria do britânico Brian Eno, é composta de sintetizadores e cai bem dentro do roteiro. As cores das cenas são lindas, combinando com o olhar e tons da menina. Eu daria nota 7,5, só para não ser tão ruim. Até porque eu chorei bastante.

*Ficha Técnica

5 pensamentos sobre “Do paraíso obscuro

  1. Ótimo texto, Pollis.
    Concordo! Faltou foco, sei lá… Seguir uma linha…

    E por falar em ‘traduções | adaptações’, o Renato Cunha (pesquisador formado pela UnB) tem um texto bem legal, que vai relacionar cinema e literatura, o autor nos faz imaginar o seguinte:

    “[…] duas caixas: uma grande, maciça (um livro), e uma pequena, vazia (a potencialidade de um filme) – no geral, é isso. Então para se concretizar essa potencialidade, é preciso se achar um modo de a caixa grande caber dentro da pequena.”

    Cunha acredita que a “melhor saída – pelo menos, a mais criativa – seja esculpir a caixa grande, buscando-se novo objeto, com características distintas, que caiba na pequena, sem a obrigação de enchê-la. Em linhas gerais, academicamente, isso foi o que começou a ser chamado de tradução intersemiótica. Ou seja, a transformação de signos verbais em não verbais.”

    iii, acho que escrevi demais, quase usei o espaço de comentários do seu blog pra fazer um post xD
    … Quem quiser saber mais, o Renato fala mais sobre isso em “O cinema e seus outros – LGE Ed.”

  2. Concordo com seu ponto de vista, Popó. Quando soube que Peter Jackson iria adaptar o livro para o cinema, fiquei ansioso. Afinal, o cara já tinha feito coisas extravagantes (como a trilogia “O Senhor dos Anéis”) e outras mais simples (“Almas Gêmeas”). A história realmente pede uma abordagem menos fantasiosa. Pena que ele tenha optado pela pirotecnia/efeitos visuais em detrimento das emoções e conflitos dos personagens. Mas no geral é um bom filme, bem acima da média.

  3. Devo defender que adorei a cena “Jogos Mortais” hehehe… se o filme pecou por não deixar claro os métodos cruéis de Harvey, presentes no livro, essa cena pelo menos deixou claro que deve ter sido uma bagaceira.

    No entanto, senti o mesmo que você: uma pena que um diretor tão bom (e olha que incluo aqui os clássicos de horror trash-cômico que ele realizou) tenha se perdido TANTO. O grande mal do filme são os efeitos especiais, muito menos pela existência dos mesmos (a cena das garrafas quebrando no mar é bonita, vai) mas muito mais pela BREGUICE de tudo. Ele deveria compreender, pelo menos, que na evolução dos efeitos especiais, as pessoas pararam de fazer coisas como sequências de vídeo refletidas na água. hahaha

    No fim, senti vontade de ler o livro (muito pela sequência da(s) armadilha(s), tanto aquela quando Harvey captura Susie quanto aquela TENSA em que recebe ajuda do pai da mesma.

    Percebi claramente que o que ele tentou fazer foi um filme à semelhança de Almas Gêmeas, que também é recheado de efeitos toscos mas é muito mais feliz nas analogias entre o universo imaginário e a realidade, e não dá a impressão de estar mostrando um show desnecessário. Pior quando o show é brega né? rs

    Bjs,
    Saul.

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