Reflexão Devassa

Como quase todo mundo sabe, a propaganda da cerveja Devassa, estrelada pela socialite-celebridade Paris Hilton foi proibida pelo Conselho de Autorregulamentação Publicitária (Conar). Após três notificações do órgão, o Grupo Schincariol retirou o comercial do ar.

Segundo o Conar, a campanha feriu a imagem da mulher e contém apelo excessivo à sensualidade. Além do que, três processos foram abertos contra a mesma: um pelos consumidores, outro por órgãos em defesa dos direitos da mulher e o último pelo próprio Conar.

Veja e tire suas conclusões:

Polêmica feita, aqui e lá fora – sim, porque repercutiu negativamente nos EUA e a própria Paris disse em seu Twitter que a atitude era ridícula – temos a pergunta: por que propagandas com temáticas que envolvem sexualidade causam tanta polêmica no Brasil, um país aparentemente liberal?

Esse não será o primeiro nem o último fato que causará alvoroço e controvérsias por aí. Recentemente a Havaianas também passou por isso com o comercial da “vovó morderninha”, no qual a marca contornou e ganhou o apoio do público. Ponto pra eles. Agindo do mesmo modo, a Devassa já lançou uma resposta à proibição e se deu bem.

Disso surgem os comentários que a empresa pode ter feito de caso pensado e que já tem a resposta para as críticas em mãos quando lança a polêmica. Consumidores acham que o objetivo é causar burburinho para dar valor à marca. Se é verdade ou não, creio que é algo arriscado demais para a imagem de uma marca, porque pode gerar consequências realmente negativas. Quem vai gostar de ter certeza que está sendo enganado? Ninguém.

Mas voltando ao questionamento. Levando em consideração que no Brasil a nudez é facilmente comercializada em revistas masculinas, mulheres são vistas seminuas livremente na Tv em temos de Carnaval, diariamente tempos cenas nas novelas que atacam os bons costumes etc, não seria hipocrisia exagerada proibir uma campanha por ser sensual demais? Considero que sim.

Até porque, se proibimos uma publicidade, devemos questionar a mesma abordagem em outros meios de maior acesso à massa. E não falo só de temas sobre sexo, mas sobre violência, política, entre outros. Se pode agredir alguém, tem que ser repensado.

Na Argentina, por exemplo, vemos campanhas ligadas diretamente a temas como sensualidade sem nenhuma (ou quase) rejeição do público. E sabe-se que, culturalmente, nossos hermanos se expõe menos que os brasileiros nessa questão. Um exemplo é a campanha da Playboy, que pela primeira vez na história escolheria sua musa através de um concurso na web. Qualquer mulher podia participar, desde que quisesse. No Brasil isso seria aceito?

Não vale posar de puritano ou politicamente correto sob conceitos fracos. A campanha incentivava o consumo de bebida alcoólica? Ok. A intenção de uma propaganda de cerveja com ou sem as caras-e-bocas de Hilton servem para quê? Incentivar o consumo de álcool. Da mesma forma que, direta ou indiretamente, uma campanha da Fiat vai estimular a compra de um carro. O pecado está em ser explícito?

Outra coisa, a campanha não foi voltada para definir o papel da mulher brasileira na sociedade, mas para fixar o conceito da marca: devassa. Tudo está relacionado com o que representa a “personagem” Devassa, um produto designado como substantivo feminino (a cerveja), ligado à sensualidade, juventude, beleza, falta de compromisso, diversão, características que podem ser traduzidas numa mulher como Paris. Pronto, acabou aí.

De todo modo, a Mood, agência responsável pela conta da Devassa, fez um bom trabalho criando uma nova peça em que, numa sacada genial, mostra a pin-up, símbolo da marca, com uma tarja nos seios. No comercial é anunciado que o vídeo anterior está disponível na internet para ser visto.

Aí eu me pergunto: veríamos isso em outra época? Ou isso é um reflexo do poder das mídias sociais? Sim, porque até campanha no Twitter foi lançada pedindo o retorno do comercial. Será que tanto a Devassa como a Havaianas teriam feito comerciais em resposta e deixado o vídeo antigo na web se as pessoas não pedissem por isso nas redes sociais? Essa atitude dupla é o modo mais certeiro de ganhar o coração de um público mais vasto: os puritanos e os moderninhos.

Para mim, sem o debate que o caso gerou no Twitter não existiria polêmica. Peças da campanha ainda seriam suspensas, a empresa ainda faria uma “retratação”, mas polêmica mesmo, como questionamento de valores, opiniões positivas e negativas, hashtag #VoltaDevassa eram inexistentes, o que não acrescentaria em nada à imagem da nova concorrente no mercado das cervejas.

Enfim, publicidade agressiva sempre vai existir, hipocrisia também, mas a grande questão aqui é: no mundo das redes sociais nada passa despercebido, portanto, quem rejeita isso, nega uma boa parte da opinião pública.

5 pensamentos sobre “Reflexão Devassa

  1. Belo texto poli. E concordo contigo, há um excesso de puritanismo em alguns setores “mais chatos” da sociedade brasileira. Não achei que o comercial da Devassa acabasse com a imagem da mulher, ou qualquer coisa do tipo (diferente daquela outra peça da Skol, das mulheres clonadas).

    Houve sim um excesso por parte do Conar. Por outro lado, acho que a polêmica ajudou mais a marca, do que prejudicou. Primeiro porque o bebedor de cerveja é, em geral, homem e que não deve ter ligado para essa “exploração” do corpo da mulher. Segundo porque gerou muita mídia espontanea, muita gente que nem conhecia a Devassa colocou o nome no google e passou a conhecer e acabou torcendo para que a propaganda voltasse.

    Essa polêmica toda acabou sendo boa. E os publicitários tiveram uma sacada da porra com essa segunda peça. Acho que a Devassa está ganhando mais do que perdendo com isso.

    • Certeza disso Fábio.

      E tudo isso se deve ao poder que tem a internet e da oportunidade que ela nos dá de discutir um assunto. Na web temos mais liberdade.

      Eu não quis falar no texto, mas acho que todo esse rolé é coisa das concorrentes, porque viram que a campanha realmente fez sucesso. Mas sem dúvida que a marca saiu ganhando com isso, disparado.

      Antes eu não conhecia a marca, não bebo, então… Mas achei genial o conceito dela: essa coisa de misturar bebida com mulher e sensualidade, coisas que os homens gostam, fato.

      Depois que eles colocaram a Paris pra representá-la então… pensei: que félas, acertaram em cheio. E a proibição só fez a coisa toda ficar mais “gostosa”. Aposto que tem gente que vai pensar: Tô bebendo uma devassa proibida.hahaha

      Adoro! E valeu o comentário =*

  2. Bem, eu já conhecia a Devassa.
    Forte, Gostosa, Cara. Uma ótima cerveja.

    As duas propagandas são muito boas; puritanismo nenhum para mim tem o que falar da primeira e a segunda então vem para “calar a boca” desses pobres coitados.

    Até porque, propaganda tem que ser que nem cerveja boa:
    Forte, Gostosa, Cara.

    p.s: já que não uso twitter, adorei seu texto me manter informado acerca disso. (y)

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s