Pierrô e Colombina

Todo ano era a mesma coisa. Só desejava adormecer e retornar quando se restabelecesse a normalidade. Afogada em livros e filmes, mantinha distância do mundo carnavalesco e de todos aqueles que o amassem mais que a si mesmos. Preferia limonada à cerveja e um bom sono a qualquer movimento corporal que lembrasse dança. Foi capaz até de jurar que mudaria para a Argentina. Ou Londres. Ou um universo paralelo e triste em que não existisse carnaval. Mas tinha um segredo. O trio Pierrô, Colombina e Arlequim amoleciam seu coração.

Do outro lado da cidade, como em todo ano, havia o frevo das sombrinhas coloridas, a chuva de confetes e serpentinas, os beijos eufóricos e cheios de calor festivo. Atmosfera repleta de diversidade compartilhada em um trecho urbano qualquer. E ele, que prezava a intensidade e rapidez das coisas e tinha o carnaval como a festa que mais lhe fazia gosto. Em quatro dias podia ser despreocupado como em nenhuma época do ano. Além do que, todos os seus pecados, por pacto social, eram sempre esquecidos e infinitamente perdoados. Mas também tinha um segredo. Queria abandonar a folia.

E como sempre alertam os avós, o destino é um bicho bem traiçoeiro às vezes.

Assim, ela viu-se obrigada a sair de casa para acompanhar a irmã até o outro lado da cidade, o lado que tanto evitava. A irmã implorara por dois dias seguidos sem descanso e, para evitar mais choros e rancor eterno, decidiu levá-la até os amigos e depois retornar a sua paz.

Engano. Puxaram-na pelo braço, como fazem os rapazes sedentos por bocas livres como a dela. Antes que pensasse em detê-lo, entregou-se… em lábios e coração. Não por fraqueza, mas porque queria. E ficaram assim, envolvidos em longos minutos, distribuindo carinhos aleatórios em meio à multidão, como se nunca tivessem beijado na vida ou nunca mais fossem beijar outras bocas. Talvez por isso, esqueceram todos ao redor e fugiram.

Reservados, despiram-se com um ansioso cuidado. Dois corpos desprotegidos de todo pudor, buscando no outro a vivacidade que lhes faltava. Num misto de egoísmo e desalento, beijavam-se com todo o ímpeto que tinham e libertavam suspiros e gemidos tão apaixonados quanto descompromissados. E olhavam-se, com ternura e pena por não saberem de nomes, gostos e planos do outro. Apenas entregavam-se às exigências de seus corpos, à luxúria desmedida que os fazia implorar pela eternidade de tudo aquilo.

Queimavam por dentro. E pareciam querer chorar, mas se riam. Arrancavam todo amor permitido. Ele apossava-se de todo o seu sabor de moça, de toda a doçura de suas curvas, de toda a maciez de sua pele viçosa, com textura de rosa branca. Ela, tão tímida e disciplinada no dia-a-dia, domava-o sob seus caprichos e o enlonquecia com toques, beijos, mordidas, sorriso cínico e olhar impiedoso.

E a nudez tomara conta da cama, do chão, do banho, das horas. Um silenciava, o outro gritava. Lá fora, a música parecia mais e mais alta, ao mesmo tempo que a folia incessante era tão muda e exausta quanto suas almas. A cidade estava alheia.

Dia seguinte, porque sempre existe um sol após todo acontecimento, só restava a ele uma pulseira de fita com um pingente em C, além do aroma cítrico do perfume dela. Quarto vazio, lençóis amarrotados e uma certa solidão. Para a moça… bem, não se sabe o que restou. Desapareceu com o primeiro feixe de luz da quarta de cinzas. E já que todas as loucuras de folião são esquecidas pós carnaval, acredita-se que por isso mesmo voltou a sua velha rotina de moça calma sem nenhuma recordação.

O que se sabe, no fim das contas, é que um nostálgico pierrô, apaixonado por aromas cítricos, passou a visitar todos os anos o universo paralelo sem folia.

*Foto

6 pensamentos sobre “Pierrô e Colombina

  1. “E a nudez tomara conta da cama, do chão, do banho, das horas. Um silenciava, o outro gritava. Lá fora, a música parecia mais e mais alta, ao mesmo tempo que a folia incessante era tão muda e exausta quanto suas almas. A cidade estava alheia.”

    Nada mais real.

  2. Me lembrou trecho de poesia do Eduardo Galeano, que diz “…a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia”

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