Sobre tudo, a janela

Gostava de sentar perto da janela no ônibus. O vento, a paisagem, o som… precisava estar em contato com a vida o tempo todo e, para ela, a vida podia ser alcançada ali, através do espaço que a breve abertura de janela lhe cedia. Só não sabia como, então repetia esse gesto como um ritual, porque acreditava que uma hora a resposta viria.

Como em todos os dias, sempre na ida e volta para casa, adotou a janela de sua preferência e ali ficaria até seu destino se ele, humildemente, não tivesse sentado ao lado.

Olhou-o involuntariamente, numa atitude primária de seu corpo. Poucas coisas a distraíam, mas ele, não se sabe como, conseguiu fazê-la manter o olhar e pensamento voltados à sua presença.

Possuía em si, quase por completo, apenas um tom. O da experiência de quem teria carregado o mundo inteiro sobre os ombros. Mas o olhar parecia de menino, com uma perfeita ingenuidade escondida no claro de seus olhos tão serenos quanto tristes, tão perdidos quanto determinados.

E o contemplou por segundos que lhe pareceram minutos e, por vezes, horas. Ele, que vestia uma calça de linho, camisa de botões e listras azuis e brancas; usava também um chapéu com uma finíssima tira de couro trançado e sandálias igualmente de couro, iguais a essas de franciscanos, como sua mãe explicava. Enquanto isso, a vida que ela achava ter ao olhar pela janela, passava ligeiramente. Tolice, não era ali que estava o que ela procurava.

Finalmente a olhou e sorriu, mas ela não percebeu porque fora discreto e rápido. Reclamou do calor e ela, em admiração, sorriu de volta o seu sorriso grande e branco. Não era de todo bela, era a mais comum de todas as moças, simples e tímida. Mas o sorriso não existia igual, não com aquele teor de bondade.

A moça não pensou duas vezes, não poderia deixar que ele sentisse calor e ofereceu-lhe o seu lugar. Ele, constrangido, relutou, mas ela já estava de pé para fazer a permuta. Ainda pensou o quanto seria menos interessante uma viagem sem a sua janela, mas logo esqueceu disso quando percebeu que para aquele senhor, de pele castigada pelo sol, o vento era bem mais generoso. E então ficou convencida de que teria mais tempo que ele nesta vida para aproveitar janelas.

Enganou-se. Nunca mais conseguiu uma janela depois disso, assim como nunca mais viu o senhor de chinelo franciscano. Não se explica tal fato, como qualquer outro dos milhares mistérios da vida, esse também permaneceu sem definição. Mas não sentiu falta, sua vida florescera. Conseguiu descobrir o que tanto buscava e não enxergava através da abertura lateral e estreita do ônibus.

E por ceder o espaço uma única vez, pôde ser mais feliz. Porque substitui o trajeto de seu olhar. Deixou de ser comum, tornou-se tão única e rara quanto seu sorriso. Expressava não só beleza, mas uma paz e vivacidade incansáveis. Já não tinha mais o olhar ansioso e o coração triste. Não lembrava como conseguira mudar tanto, mas era feliz por ter mudado.

Assim, a vida mostrou-se generosa, e num dia cruelmente ensolarado, ela pode reencontrar a janela do ônibus que tanto amava. Depois de 20 anos sem contemplar as ruas, as pessoas, os carros, pontes e detalhes urbanos por ali, finalmente ela estava de volta. E só conseguiu isso porque um jovem rapaz, de sorriso grande e branco, lhe cedera o lugar por causa do excessivo calor.

*Foto Lamonier

7 pensamentos sobre “Sobre tudo, a janela

  1. Muito bom o seu texto… De verdade!!!
    Creio que são nas pequenas coisas que se encontram as verdadeiras razões para a felicidade. Senti isso no seu texto. Senti isso na fulana!
    Adoro ler o que você escreve. É tudo de uma clareza tão grande, com tanta harmonia, que mesmo um texto grande não me impede de ler até o fim.

    Beijos, futura-pequena-grande-jornalista!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s