Canções de baleias e ratos modestos

Arte e artista definidos num só. Mas e quando esses dois mundos querem se separar? Ou quando um deles briga para sobressair?

Numa tentativa de resgatar suas memórias e materializá-las, um artista se vê diante de uma máquina que poderá ajudá-lo a concretizar isso. Dividido entre seus dois mundos, o de sua arte e o de si mesmo, ele tenta se definir.

Guiado pelas linhas de seu pensamento, seus desejos e realidade vão sendo revelados na busca de liberdade, mas num espaço tênue, diretamente ligado à sua auto-destruição.

Essa é a definição básica do clipe The Whale Song do Modest Mouse. No post Música para assistir falei de clipes criativos e acabei por não citar esse, que já tinha visto há um bom tempo e que gostei bastante pelos efeitos. Na verdade, por ser tão incrível, Whale Song merece um post egocêntrico, um espaço só pra si, porque não que ele seja melhor que os outros, é pela genialidade extrema do trabalho.

Surreal, intrigante e singular, o clipe supera a categoria de mesmo nome. O vídeo produzido pela Bent Image Lab se encaixa perfeitamente em um trabalho cinematográfico, pelas técnicas apuradíssimas, estética e contexto do roteiro. Vale dizer que é um dos melhores curtas que já vi esse ano.

E o trabalho todo é brazuca. Nando Costa, artista gráfico carioca radicado nos Estados Unidos, usou seu talento em ilustração e animação e arrebentou na direção do clipe. Utilizando técnicas de stop motion (maravilha de invenção), live action e motion graphics, Nando deu aspectos sombrios e, ao mesmo tempo, encantadores ao vídeo. Bela e impecável película.

Já o som do Modest Mouse me pareceu ser um rock bem alternativo (indie). Eu não sou especialista em música, de fato, mas essa foi a associação feita pelos meus ouvidos. Whale Song é essencialmente instrumental, com pegadas constantes de guitarra. Vozes múltiplas e sobrepostas completam a música. Trilha perfeita para um clipe incrível.

A única coisa que me dá agonia é o caramujo. Lento e pegajoso, me assusta, mas se encaixa bem dentro da temática do vídeo. Nem o sangue espirrado me apavora tanto.

Para completar minha fascinação, os caras disponibilizaram fotos do making of da gravação e fotos do clipe no Flickr e eu ainda dei uma sacada nos outros trabalhos do Nando Costa, que são inúmeros e de qualidade superior.

No mais, recomendo não só curtir… se renda, é bem melhor.

2 pensamentos sobre “Canções de baleias e ratos modestos

  1. *.* Que texto lindo! O som do Modest Mouse é pra se render realmente. O lance do caramujo , assim como a presença do mar e de artefatos rústicos, acredito que seja pra lembrar a estética geral dos ultimos clipes deles, sempre relacionados de alguma forma com a navegação, pescadores etc (apesar das letras não terem muito a ver no geral). A letra de “Whale Song”, no entanto, tem tons de denúncia quanto à caça de baleias mesmo!
    Adorei a discussão entre arte/artista. As “linhas do pensamento”, ou a própria metáfora das veias por onde corre a tinta. Me lembra a cena de algum dos filmes da série Nightmare on Elm Street, quando um garoto é puxado pelos nervos que saem pelos pulsos, até ser forçado a chegar em uma varanda e pular (claro que isso é só um pesadelo inspirado por Freddy, o rapaz na realidade tá simplesmente caminhando até a varanda, sonâmbulo)… Isso que é auto-destruição!
    Sua pesquisa foi genial! Adorei, quero mais!
    =*

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